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segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Acabou-se

Agora é mesmo a sério. O Blog do Gato Preto acaba aqui, oito anos depois.

Este blog nasceu do meu gosto pela partilha de informação, característica que mantenho. No entanto, creio que talvez uma certa ambiguidade temática me tenha tornado demasiado tímido para o alimentar convenientemente. Julgo que nunca consegui fazer a necessária evolução, do diário lírico-romântico que começou por ser e que já não me satisfaz, para o registo pessoal livre e descomprometido que hoje me apetece e que sinto já não caber confortavelmente aqui.

O boom bloguista que marcou a Web do final do séc. XX esmoreceu, mas as redes sociais não conseguiram substituir este formato. Além de não serem ainda capazes de imitar a sua profundidade em termos de conteúdo e personalização, complementaram-no, ajudando na sua divulgação e discussão. Mais: a revolução no mundo da informação global ainda agora começou – o fim do monopólio da divulgação de informação pela chamada Comunicação Social é, acredito, o início de uma era de cidadãos potencialmente mais livres e conscientes. E aqui, o formato web log tem um papel ímpar.

A terminar este ciclo, sei que por muitas incertezas que me tenha causado, por muito que tenha sido o tempo – ainda assim tão pouco – que investi neste site, não tenho dúvidas de que valeu a pena – na pior das hipóteses, aprendi muito! Gostei tanto da experiência, que a recomendo a qualquer pessoa que tenha histórias para contar. Gostei tanto, que a vou recomeçar, noutro Registo [ainda não está aberto!].

Até à vista, car@s leitor@s, obrigado por tudo. Lêmo-nos em breve [ainda esta década...].

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Porque duram os produtos electrónicos cada vez menos?

Primeiro, um palavrão, para quem não souber: obsolescência diz-se daquilo que é obsoleto, ou antiquado, daquilo que cai em desuso.

Sobre um tema do qual muitos de nós, intuitivamente, nos damos conta, A História Secreta da Obsolescência Planeada é um documentário que mostra como os empresários industriais, postos perante a necessidade de motivar o consumo, optaram por fabricar produtos de pior qualidade, obrigando os consumidores a terem de adquirir novos, mais regularmente. Esta estratégia foi (e é) conseguida através de acordos secretos entre concorrentes, os chamados carteís, à margem dos cidadãos, dos governos e das leis.

Porque duram os produtos electrónicos cada vez menos? Como é que em 1911 uma lâmpada teria uma duração certificada de 2.500 horas e cem anos depois a sua vida útil se tenha reduzido a metade?
Este filme franco-catalão, que vos apresento na íntegra (com legendas em português), além de uma análise histórica, aborda vários exemplos da indústria do desperdício e da exploração do consumidor, bem visíveis no nosso dia-a-dia, desde a impressora caseira que se recusa a imprimir, até à célebre história da (des)evolução das lâmpadas de filamentos.

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Espamação precoce

Raras vezes tive o privilégio (ou a paciência) de contemplar o engenho dos laboriosos spammers [1] que diariamente me enchem a pasta do spam com porcaria. É uma pena, digo-o com sinceridade, porque há ali tesouros incríveis. Lamentavelmente, há muito que nem sequer abro esse tipo de mensagens; o meu programa de email é bastante eficaz a separar o trigo do joio.

Hoje, no entanto, um título chamou-me a atenção:

{Ola|Bom dia} , Um cargo com um {salario|lucro} alto

"Lindo! O gajo largou-se", pensei. De facto, estava perante uma mensagem enviada por engano, formatada para ser lida, não por mim, mas por um programa de computador que seleccionaria (de forma aleatória?) várias expressões alternativas (entre chavetas e separadas por barras verticais), de forma a que cada email, enviado de forma automática, fosse diferente do anterior. Por exemplo, com o comando "{Ola|Bom dia}" o dito programa escolherá uma das duas, "Ola" ou "Bom dia", e substituirá todo o comando pela expressão escolhida. Simples não é?

Para público regozijo, enquanto salivamos pela versão corrigida, aqui fica esta maravilha de esboço – uma oferta de trabalho num grande banco japonês!

domingo, 3 de junho de 2012

Pure genius – a draft definition

Pure genius – necessary and sufficient conditions:

1. Learn all around you, even if it seems wrong;
2. Then do things differently, even if it seems wrong to others;
3. Work hard;
4. Both 1 and 2 require 3.


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Tradução para português: aqui.

sexta-feira, 27 de abril de 2012

Donos de Portugal

Começa assim:

Imagina-se a consultar a edição de um jornal económico de um futuro longínquo, digamos, 2150? É difícil antecipar o que ali encontraria. Não se adivinha o suporte das notícias, muito menos os protagonistas dos factos.

Pois imagine agora que um seu antepassado, leitor das crónicas de negócios do século XIX, regressava a Lisboa para retomar as leituras. Que espanto sentiria ele ao encontrar os mesmos nomes daquelas grandes famílias que povoavam a Baixa ou a Lapa? Será que ainda vão lá estar em 2150?
Donos de Portugal é um filme de Jorge Costa, baseado no livro de que é co-autor, narrado pelo inigualável Fernando Alves. Pois que muitas estórias de encantar e cousas tantas fascinantes ficam por aprofundar, este é um apenas breve olhar sobre as grandes famiglias que há tanto tempo dominam o poder económico deste país submisso, sobrevivendo às mudanças de regime, sempre com a protecção do Estado. Não deixe de ver, que vale a pena. Está aqui, na íntegra:




Mais informação:

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Um dia tão cinzento

Foi no dia 10 de Outubro de 1999 que votei pela primeira vez numas eleições. Fui um dos pouco mais de cem mil portugueses que, cansados do Centrão pançudo e corrupto, mas desconfiados do monocórdico e pseudo-democrático Partido Comunista, acreditaram num recém-nascido movimento polítco que chamava os bois pelos nomes. Daí para cá, as minhas convicções evoluíram; já deixei de votar e duvido que o volte a fazer nas condições actuais de representatividade. (Sei que muitos não gostam, que defendem uma certa democracia-do-papelinho-de-cinco-em-cinco-anos, mas não reconheço a ninguém o direito de me obrigar a exercer... um direito! Adiante.)

Miguel Portas (1958-2012)
Miguel Portas (1958-2012). © sapo.pt

Um dos que me levaram às urnas em 99 foi Miguel Portas, de quem tenho a dizer que, aparte algumas diferenças ideológicas, sempre foi mais aquilo que nos uniu do que o que nos separou. Na acção e no discurso, cedo o vi como uma personagem à parte, um tipo duma honestidade aparente e duma decência fora do normal entre os políticos. Posso ter-me enganado, até porque nunca o conhecerei pessoalmente, mas isso hoje pouco importa.

Pela influência que teve no meu amadurecimento como cidadão e pelo exemplo de tenacidade e humildade que me inspirou, nesta hora de tristeza para quem lhe foi querido, deixo aqui uma homenagem e um agradecimento ao Miguel, que morreu ontem [1] "em Antuérpia. Na véspera do 25 de Abril que mais dele precisa de quantos 25 de Abril vivemos depois de 1974." [2] Questiono-me agora se o 25 de Abril acabou [3] mesmo ou se apenas ficou mais cinzento.

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Referências:
[1] Notícia no Público.
[2] Artigo de Paulo Querido no Certamente.
[3] Artigo de Rui Eduardo Paes no Bitaites.

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

O século do povo não dura só 100 anos

Unidos por uma mudança global, milhões de pessoas em todo o mundo desfilaram em protesto, exigindo... democracia! A comunicação social, em negação, vai dando relevo àquilo que considera essencial – as birras da PSP na escadaria do Parlamento, os confrontos de uma dúzia de pessoas com a polícia italiana, ou os golos do Benfica contra o Portimonense. Enquanto isso, lá fora, a realidade mostra-nos que a História é imprevisível, imparável, subtil, e que o século do povo pode não ter terminado ainda.

No passado sábado, pela primeira vez nesta escala e com este grau de convergência, um movimento de protesto planetário fez com que milhões de cidadãos saíssem à rua, mobilizados por palavras de ordem inimagináveis há bem pouco tempo como revolução, e colocando em hipótese heresias como consciência cívica, desobediência civil ou democracia directa. Apenas palavras, mas valiosas palavras, pois ecoaram por todo mundo e delas, não tenham dúvidas, resultarão consequências. O futuro dirá se será esta geração a pôr em prática a reforma dum sistema que, ferido, se tornará cada dia mais perigoso.


Álbum fotográfico da manifestação. Lisboa, 15 de Outubro de 2011

Em Lisboa, estima-se que terão estado nas ruas, entre o Marquês de Pombal e São Bento, cerca de 100 mil pessoas – uma pequena parte dos milhões que, por toda a Terra se cansaram do silêncio e, pela primeira vez na História, se vão dando conta de que há problemas comuns a resolver.

História. Planeta. Coisas grandes, com maiúsculas. Coisas que fazem um estrondo enorme quando caem no chão. Qualquer que seja nosso lado da barricada, será sensato tomarmos isto como um primeiro aviso sério.

Entretanto, façamos de conta que mantemos a calma e circulemos. Devagar, quer se goste ou não, o mundo vai mudando. E nada se repete.

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Lembradura

Só uma lembradura, dirigida apenas a quem não acha que está tudo bem (os outros ainda têm muita austeridade pela frente até ganharem juízo):

Cartaz 15 de Outubro
15 de Outubro a Democracia sai à rua!
Mais detalhes:

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

'Start a business, not a startup'

Partilho convosco um pequeno texto sobre essas coisas fabulosas que o mundo (um certo mundo, enfim) colocou num pedestal – as startups. O livro, já agora, é excelente, tanto pela forma leal como nos relata a experiência dos autores, como pela pertinência com que põe em causa o seguidismo das nossas empresas.


... que é como quem diz vai mazé trabalhar, ó...
Ah, the startup. It's a special breed of company that gets a lot of attention (especially in the tech world).

The startup is a magical place. It's a place where expenses are someone else's problem. It's a place where that pesky thing called revenue is never an issue. It's a place where you can spend other people's money until you figure out a way to make your own. It's a place where the laws of business physics don't apply.

The problem with this magical place is it's a fairy tale. The truth is every business, new or old, is governed by the same set of market forces and economic rules. Revenue in, expenses out. Turn a profit or wind up gone.

Startups try to ignore this reality. They are run by people trying to postpone the inevitable, i.e., that moment when their business has to grow up, turn a profit, and be a real, sustainable business.

Anyone who takes a "we'll figure out how to profit in the future" attitude to business is being ridiculous. That's like building a rocket ship but starting off by saying, "Let's pretend gravity doesn't exist." A business without a path to profit isn't a business, it's a hobby.

So don't use the idea of a startup as a crutch. Instead, start an actual business. Actual businesses have to deal with actual things like b Ils and payroll. Actual businesses worry about profit from day one. Actual businesses don't mask deep problems by saying, "It's OK, we're a startup." Act like an actual business and you'll have a much better shot a: succeeding.


FRIED, Jason. HANSSON, David. Rework. Crown Business, 2010, p. 56-57.

sábado, 2 de julho de 2011

Ingenuidade (da taxa e do tacho)

Permitam-me uma ingenuidade.


High Voltage, por LordMeltdown

Por que raio estamos a pagar à EDP para nos cobrar um imposto? Não é suposto ser o Estado a fazê-lo? Para quê pagar a um intermediário? Isto para não falar na injustiça (ou até na ilegalidade) da mesma, que me parece gritante. Cito, a propósito, o Quintus (num artigo onde desmistifica as já famosas mensagens de e-mail sobre o cancelamento da tal "contribuição para o áudio-visual"):
É claro que a taxa em si é absurda… não só a RTP1 tem publicidade, como o seu serviço público (de qualidade duvidosa) devia ser financiado diretamente (totalmente) pelo Orçamento de Estado, não por uma dupla tributação mascarada como “taxa audiovisual”.
No entanto, os nossos governantes não são pessoas normais, possuem uma inteligência superior, portanto a roubalheira continua, e reparem como, em plena (suposta) crise, o governo anterior, em vésperas de cair, foi célere em... aumentar a despesa pública.

terça-feira, 21 de junho de 2011

Nobrezas


Don Vito Corleone, por Mick Baltes (http://mickbaltes.de/blog/)

Ouvi dizer que Fernando Nobre (FN) não foi eleito presidente da Assembleia da República (AR) por falta de... experiência política. No entanto, é um dos poucos deputados que se pode gabar de ter sido sufragado directamente pelos cidadãos portugueses e, diga-se, com invejáveis resultados (16% nas presidenciais), além de ter sido cabeça de lista nas últimas eleições, também com sucesso. FN é um dos poucos deputados que são minimamente conhecidos pelos portugueses, e é também um dos poucos que não fizeram do partidarismo vida, um dos cada vez menos que fizeram algo na vida a que se possa chamar trabalho. Pois.

Por falar nisso, será que os bem-intencionados cinco milhões e meio de votantes das legislativas conhecem o curriculum vitae de Passos Coelho?

*

FN, o puro, o independente, o apartidário, após de concluir que "se não os vences, junta-te a eles", juntou-se aos vencedores. Ainda acabado chegar ao centrão, à ganância, quis ser tachista-mor e fez depender o seu mandato de deputado da eleição como presidente da AR. Previsivelmente, a máquina partidária castigou-o. Cabisbaixo, FN deu o dito por não dito e afinal fica em São Bento. [1] As máquinas partidárias, como qualquer organismo do Estado, sabem bem quem são os seus. São precisos alguns anos de submundo para se chegar a capo...

Não se é da famiglia de um dia para o outro. O homem tinha mesmo falta de experiência política.

---
[1] Actualização, 4 de Julho de 2011:
Pensando bem, gostou muito de estar ao lado do "senhor doutor Pedro Passos Coelho", mas afinal não fica.

sábado, 18 de junho de 2011

Ícones duma época de sonhos desfeitos

Adore-se ou deteste-se, a maior ilha das Caraíbas é um país especial. Desde a Revolução de Fidel Castro e Che Guevara que Cuba sobrevive à ira do poderoso vizinho do Norte, inicialmente protegida pela URSS, depois quase fora do mundo, num planeta de paradoxos e contrastes. Independentemente das razões históricas e políticas deste isolamento, há algo de notável, que a cada esquina salta à vista do turista: a tremenda capacidade de sobrevivência e o engenho dos cubanos. Tudo é escasso, o que implica que tudo é valioso. Tudo é racionado e nada pode ser desperdiçado. Isto para chegar, como já viram, aos automóves.


Um Plymouth descansa em Havana. Creio que este modelo norte-americano começou a ser produzido no final dos anos 40.

O estafado parque automóvel cubano, na sua maioria, data dos anos 50 e 60. Elegantes espécimes de Ford, Buick, Pontiac, Plymouth, Chevrolet ou Cadillac, os yank tanks, alguns verdadeiros carros de luxo antes da revolução, coexistem agora ruidosa e esforçadamente com os mais rectilíneos e proletários Lada soviéticos ou os Trabant da Alemanha de Leste. Um milagre de longevidade, cujo mérito certamente pertence, em grande parte, aos mecânicos cubanos, bem formados, extremamente poupados e... desenrascados. Basta imaginar, por exemplo, que o belíssimo Plymouth amarelo da foto acima terá, provavelmente, um motor russo!


Perspectiva. Um cintilante carro vermelho visto detrás das grades. Alguém conhece a marca e o modelo?

Mais tarde ou mais cedo, se calhar até mais cedo do que seria de esperar, a inevitável abertura de Cuba acabará por provocar o desaparecimento destas jóias ambulantes das estradas esburacadas da mais bela das ilhas. Ficará a memória e certamente o já vasto registo fotográfico, testemunhas da grandeza destes ícones duma época de sonhos desfeitos e, sobretudo, da grandeza de um povo. Porque tive o privilégio de ver sofrer Cuba, esta é a minha contribuição.


Volkswagen "carocha" vermelho no Malecón.

*

Algumas galerias com fotografias de automóveis cubanos:

domingo, 12 de junho de 2011

Utopia 2.0: entre o sofá e o chicote

O über geek Steve Wozniak revelou que nós, seres humanos, estamos destinados a ser os animais de estimação dos robôs. We're already creating the superior beings, disse. O fundador da Apple acredita que, muito brevemente, todo o trabalho será feito pelas máquinas, we're just going to have the easy life.

*

Entretanto, deste lado do Atlântico, chegam-nos notícias de escravatura. Nada que nos surpreenda ou aflija. Todos sabemos como são construídas as nossas estradas e as nossas pontes, por eslavos e africanos sem documentos nem direitos. Fomos pioneiros nessa indústria, e continuamos fiéis à nobre tradição mercantil, fechando os olhos, desenhando as novas rotas dos escravos. Fazendo História. No sofá.

sábado, 11 de junho de 2011

O povo quer o poder?


'Reality Show' por Gilad

Na sequência do artigo anterior, publico aqui [1] uma pequena análise de Maria Filomena Mónica (MFM) ao sistema eleitoral português. Longe do paternalismo hipócrita de Cavaco ou da chantagem da esquerda parlamentar (vote em nós senão a direita ganha e está tudo lixado), a autora fala da que é, para mim, a questão essencial para o futuro da vida pública deste país: do poder dos cidadãos, da sua representação nos órgãos de decisão e da sua capacidade de intervenção nos mesmos. Ciente, como no fundo todos nós, que monstro velho não aprende modas, MFM diz-nos que a única forma de se mudar a lei eleitoral é através da opinião pública. Temos de explicar, clara e sucintamente, que o atual sistema é negativo, porque nos retira poder. A melhoria não virá de dentro.

Perante isto, surgem-me algumas dúvidas: estarão os cidadãos conscientes de que o seu futuro e a sua qualidade de vida dependem de uma mudança de atitude, de maior exigência e de participação nas decisões? Estará a esquerda parlamentar, de rabinho quente, tão comprometida com o monstro, à altura dessa tarefa de consciencialização? Estará sequer interessada? E os movimentos ditos independentes ou libertários, terão capacidade para amadurecer, sair do pantanal de negação e auto-marginalização onde se afundaram?

Ou seja: o povo quer o poder? A esquerda quer que o povo queira o poder?

Tudo questões demasiado sérias, daí que não me surpreenda que ningém esteja muito preocupado com elas.

*

Estes partidos precisam de uma lição
por Maria Filomena Mónica
Expresso, 10 de junho de 2011

Há dias — quase todos — em que era melhor o Presidente da República estar calado. Eis o que, em vésperas da última eleição legislativa, resolveu dizer aos portugueses: "Se abdicarem de votar, não têm depois autoridade para criticar as políticas públicas". E se nós, cidadãos, não gostarmos das regras do jogo eleitoral em vigor? Não faz parte do meu código genético votar em branco, mas foi isso que fiz no último domingo. Por uma razão: os líderes partidários — todos — têm de meter na cabecinha a ideia de que a democracia não é deles.

Os secretários-gerais gostam de escolher os nomes que figurarão nas listas para deputados, um prémio dado à subserviência dos acólitos. Em 2010, 82% dos portugueses afirmaram estar descontentes com os partidos, mais 10% do que no ano anterior. A verificar-se a tendência, para o ano quase todos os portugueses estarão contra os partidos. A génese do atual regime foi infeliz: não fomos nós que con-quistámos as liberdades, mas os militares que, uma vez derrubado o Estado Novo, entregaram o poder aos partidos. Sem uma ligação com a população, estes aprovaram uma lei eleitoral destinada a protegê-los das tendências reacionárias do povo. Durante anteriores campanhas, o PSD e o PS afirmaram que iriam proceder a uma reforma. Uma vez no poder, não mexeram um dedo, pelo que continuamos a ter de escolher de entre a ementa cozinhada pelas maiorias partidárias. A minha voz, sei-o. não conta. Mas se milhares de cidadãos começarem a votar em branco — e foi isso que sucedeu no último domingo, com 148.058 eleitores a deslocarem-se até às mesas eleitorais para protestar — o cenário muda de figura. Luís Campos e Cunha apresentou uma boa ideia, ao afirmar que, no hemiciclo, deveriam existir cadeiras vazias correspondentes à percentagem de votos em branco na contagem global.

Se nós, eleitores, quisermos ter uma voz no Parlamento, precisamos da reintrodução de círculos uninominais (um candidato por partido e por círculo). O rei D. Pedro V que, em 1859, impôs este esquema, contra a vontade, note-se, dos partidos, morreu há muito. Hoje, não há Presidente da República, muito menos este, capaz de torcer o braço aos líderes partidários. Por conseguinte, a única forma de se mudar a lei eleitoral é através da opinião pública. Temos de explicar, clara e sucintamente, que o atual sistema é negativo, porque nos retira poder.

Se for necessário proceder-se a uma alteração constitucional — em vez dos atuais distritos teriam de existir pequenas unidades territoriais — que se avance. Mudar a Constituição não é o fim do mundo. E, por favor, não me venham com o argumento de que a criação de círculos uninominais favorece o caciquismo, em detrimento de um sistema que representaria o "interesse nacional" (um eufemismo para designar o interesse dos secre-tários-gerais). Não há esquemas perfeitos: mas o voto em alguém perto de mim dá-me uma maior possibilidade de o premiar ou punir. Não é pouco.

---
[1] Só uma nota sobre copyrights. Comprei o jornal, logo é meu e julgo que o posso emprestar a quem quiser. Além disso, ao contrário do Expresso e da restante imprensa, quando posso, identifico as minhas fontes, ainda que, como é o caso deste semanário, me causem vergonha.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

O voto é um direito, mas pode ser só uma bufazita

A propósito dum tema que muita comichão me tem dado, um leitor do Bitaites dizia assim:

O voto é um direito por uma razão: para que as pessoas possam escolher entre votar e não votar.
Absolutamente verdade. Nada mais simples e claro. Chama-se, na sua essência, Liberdade. E não há que calar, não há que ter vergonha. Ripostar sempre, impiedosamente, aos que dizem "não votas, não tens direito a opinar". Há que expôr o ridículo do preconceito fascizóide da obrigação do voto, até porque, se o bom senso não chega, nos assiste a Constituição. Essa velha violentada e senil, há que esfregá-la sem dó na cara dos seguidistas e lambões que assim resmungam.


© Angeli

Num país livre, ninguém me obriga a votar. Muito menos "ir votar" assim, com aspas, esse acto puro e simples de legitimização das elites liderantes, dos tachistas sem vivência humana, dos lacaios das máfias, dos carreiristas, da abstracção monstruosa criada por décadas de demissão de um povo. Muito menos o chico-espertismo me negará o direito de exigir, no mínimo, que seja cumprido tudo aquilo que a dita Lei prevê. A cidadania, companheiros e camaradas carneiros, vai muito além da atitude preguiçosa de ir botar o papel na caixa, da farsa inócua, quase criminosa, de "votar no menos mau", essa sim, criadora do imenso vazio que tão bem conhecemos.

Ontem, na secreta certeza de que a sua participação nas decisões da vida pública (e até a sua capacidade de reivindicação, ou de protesto) se esgotaria na insutentável leveza do boletim de voto, cinco milhões e meio de cidadãos portugueses foram votar. Hoje, creio, sentem-se aliviados, como quem, às escondidas, acaba de largar uma bufa.

*

Para quem já conhece esta casa: sim, decidi regressar, mais cedo do que previa. Coisas da vida. Voltem quando quiserem, que são bem-vindos, sobretudo se vierem de Firefox 4 ou superior, caso contrário o template pode não ficar tão lindo... I'm working on it.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

"My only friend, the end"

Em boa verdade, já devia ter feito isto há muito tempo, até por apreço para com as muitas centenas de pessoas que, por engano ou não, continuam a vir aqui mensalmente. Sempre tive a secreta esperança de voltar a ter tempo (e motivação, e disponibilidade mental) para voltar a publicar regularmente. Paciência.

Sendo assim, por respeito a todos vós, companheiros deste último reduto de Liberdade, a World Wide Web, aqui declaro o fim do Blog do Gato Preto. Pode ser que regresse no futuro, não sei. "The future's uncertain and the end is always near." Sei, no entanto, que foi um enorme privilégio servir-vos e servir-me de vós durante estes quase seis anos.

Obrigado. Hasta siempre!

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Cid Teles, o que queria ser tudo

Aqui Jaz o Cid Teles
Sob esta pedra gelada,
O que queria ser tudo
E afinal nunca foi nada.


Rais me partam se esta porcaria de blog já parece um obituário, mas dói-me ver partirem, um a um, os grandes da minha galeria de indispensáveis. Os que guardam, secretamente, a restrita biblioteca dos valores que me vão construindo. Largos e irrecuperáveis pedaços de Humanidade.

Faleceu há dois dias um homem que faz muita falta à sua terra.


Tenho uma ânsia enorme de viver
Um desejo sangrento de lutar!
Quero dos outros tudo merecer
E mais do que ninguém ter para dar.

Avaro, quási a medo, ando a colhêr
Fôlhas de louro para me adornar;
Quantos agora passam sem me ver
Curvar-se-ão depois quando eu passar!...

Hei-de ter cetros, c'roas, pedrarias;
Castelos senhoriais, tôrres esguias,
A perder-se no Céu em rósea bruma...

Quero tudo na vida! Mas na morte,
Só desejo a altivez serena e forte
Duma onda desfeita em branca espuma!

Aspiração, por Manuel Cid Teles (Sombras, 1934)


sexta-feira, 24 de abril de 2009

Há ainda quem cuide bem deles

sexta-feira, 20 de março de 2009

Entrevista: Broken Sidewalk

Já aqui falei de Heading Somewhere, o primeiro disco do projecto Broken Sidewalk, do aveirense Pedro Mostardinha. Mas quem melhor que o próprio, para falar sobre o seu trabalho? A voz ao artista. Segue a entrevista.

*
Vitor Hugo: Pedro, dá-me três boas razões para eu comprar o CD de Broken Sidewalk.

Pedro Mostardinha: Esta pergunta é de certa forma complicada de responder... As razões que levam as pessoas a comprar CDs podem ser variadas, sendo um pouco pessoais por vezes, cada pessoa pode ter uma razão distinta para comprar um CD, se bem que por norma as pessoas compram porque gostam das músicas. No meu caso, acho que deves comprar o CD de Broken Sidewalk se gostares das músicas ou se o CD representar algo para ti. Na minha perspectiva é um disco bastante variado, que representa o meu trabalho em cerca de dois anos e tem uma capa que é bem gira. :P


VH: Sei que já tens amigos e fãs a ouvir o CD. Tens tido feedback?

PM: Sim. O que tenho ouvido é certamente positivo, as pessoas têm gostado do disco. Algumas pessoas ficaram surpresas, acho que imaginavam o álbum de outra forma. A presença da canção Move it, que foge um pouco ao estilo das outras músicas, também causou surpresa em algumas pessoas, não esperavam aquela canção no álbum. Quanto a musicas favoritas, noto uma grande dispersão, não existe uma música que seja claramente favorita, que traduz um pouco a “variedade” presente em Heading Somewhere.


VH: Desde a própria música, passando pela produção, gravação, até às questões burocráticas, acabou por ser fácil criar um disco sem a ajuda de uma editora? Foi caro? No geral, compensou?

PM: Bom, no processo de gravação houve por vezes alturas em que me senti um pouco frustrado por a canção que gravava então não soar como queria, senti que podia soar melhor mas não possuía equipamento para isso. Com isso em vista, perdi muito tempo a experimentar sons, procurar a sonoridade que imaginava para essa música, a insistir em obter o melhor resultado para ela. Quando componho a canção, imagino-a na minha cabeça, imagino uma sonoridade, mas quando gravo as coisas não soam como imaginei, têm uma sonoridade diferente, por vezes melhor, por vezes bem pior. Mas concluindo, acho que o álbum está bem gravado, para quem não recorreu a um estúdio de gravação. Quanto ao aspecto burocrático, não o considero complicado e o facto de ter sido eu a gravar acarretou menos complicações no registo. O investimento é de facto um risco, revelo que nesta altura ainda não vendi suficiente para cobrir a despesa, mas de qualquer maneira já consegui fazer chegar a minha música a algumas pessoas, que é o objectivo principal nesta fase, promover o meu trabalho e partilhá-lo com as pessoas.

quarta-feira, 18 de março de 2009

Broken Sidewalk: Heading Somewhere

Há Rock em Aveiro. Broken Sidewalk, um projecto da autoria de Pedro Mostardinha, músico amador, lançou há poucas semanas o seu primeiro CD. Heading Somewhere é o nome do álbum, completamente produzido pelo cantor, músico e letrista, e já está disponível na web, na loja do autor.

Hoje, vou falar-vos do álbum, e em breve publicarei aqui uma entrevista com o Pedro.


COMENTÁRIO

Quem começa a ouvir Heading Somewhere sabendo que Broken Sidewalk não é uma banda normal, mas um projecto embrionário constituído por uma pessoa apenas, não deixará de ficar imediatamente surpreendido pela qualidade das composições sonoras que nos oferece. Além disso, Always running, faixa 1 e uma das melhores canções do disco, não deixa dúvidas: o que aqui temos é Rock-pop romântico, 'cause I still dream and still believe.

Com altos e baixos, o estilo mantém-se até à quinta faixa: os refrões simples e eficazes, potencialmente comerciais, dão voz a vários candidatos a hinos pop. Yeaaaaah! I'm feeling so lost for you, my girl... Destaco It might take a while, pelo tempo que demorei a tirá-la da cabeça. O início suave de Far away from here lembra uma caixa de música, que vai tomando uma sonoridade estranhamente natalícia (não é um elogio) e, a espaços, roqueira. Prenúncio do que aí vem.

No meio, a pérola: The sun never goes down é a melhor canção deste álbum, o verdadeiro "sunrise" de Broken Sidewalk. Esta "ópera rock" mostra, em nove minutos, tudo do que é capaz o jovem aveirense. A meio da canção, a cereja, um delicioso solo de guitarra que nos faz imaginar as coisas lindas que o Pedro poderá fazer no futuro... E por falar em Rock, ei-lo novamente, não brilhante mas competente, na faixa 7.

Para o que se passa a seguir, sem querer desculpar-me, não serei o crítico mais favorável: confesso, não gosto por aí além de música electrónica. De romantismo Pop, é melhor nem falarmos -- tenho um filtro qualquer nos ouvidos que rejeita lamechices. Daí as notas abaixo. Aparte a minha limitação auditiva, devo admitir que, dentro do género, o Broken Sidewalk das baladas não fica a dever muito aos seus congéneres profissionais. Além disso, só pode ser bom, para um músico cuja carreira ainda agora começa, entrar de forma tão promissora em vários estilos musicais.

O disco termina, portanto, em toada calma, minimalista (acústica, até, em No one's there for you tonight) e (sempre) optimista: I must go out and fight for what I want. I don't believe it's over!

Também eu não. Há Rock de Aveiro.


FAIXAS

  1. Always running (3*)
  2. So lost (3*)
  3. Let it go (2*)
  4. It might take a while (3*)
  5. Far away from here (2*)
  6. The sun never goes down (4*)
  7. Stranger in a world I don't belong (3*)
  8. Move it (1*)
  9. No one's there for you tonight (3*)
  10. Sorry (2*)
  11. Always tomorrow (2*)
MÉDIA 3*

* Classificações entre 0 e 5, que reflectem apenas
a minha opinião ou gosto pessoal.



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