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segunda-feira, 27 de abril de 2009

Cid Teles, o que queria ser tudo

Aqui Jaz o Cid Teles
Sob esta pedra gelada,
O que queria ser tudo
E afinal nunca foi nada.


Rais me partam se esta porcaria de blog já parece um obituário, mas dói-me ver partirem, um a um, os grandes da minha galeria de indispensáveis. Os que guardam, secretamente, a restrita biblioteca dos valores que me vão construindo. Largos e irrecuperáveis pedaços de Humanidade.

Faleceu há dois dias um homem que faz muita falta à sua terra.


Tenho uma ânsia enorme de viver
Um desejo sangrento de lutar!
Quero dos outros tudo merecer
E mais do que ninguém ter para dar.

Avaro, quási a medo, ando a colhêr
Fôlhas de louro para me adornar;
Quantos agora passam sem me ver
Curvar-se-ão depois quando eu passar!...

Hei-de ter cetros, c'roas, pedrarias;
Castelos senhoriais, tôrres esguias,
A perder-se no Céu em rósea bruma...

Quero tudo na vida! Mas na morte,
Só desejo a altivez serena e forte
Duma onda desfeita em branca espuma!

Aspiração, por Manuel Cid Teles (Sombras, 1934)


segunda-feira, 25 de junho de 2007

Hipérbole


Há no teu beijo mais poesia
que em todos os versos do mundo
exagero?
seja
porém sincero
não apenas porque o quero
mas porque a demais
realidade é pouca
seja
o universo resumido
numa boca

Hipérbole?
qual hipérbole?
teu pescoço
é a definição matemática de hipérbole
ciência assim me basta
e mais nada

Adelino

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2007

Tu risa

(Teu riso)

Quítame el pan, si quieres,
quítame el aire, pero
no me quites tu risa.

No me quites la rosa,
la lanza que desgranas,
el agua que de pronto
estalla en tu alegría,
la repentina ola
de plata que te nace.

Mi lucha es dura y vuelvo
con los ojos cansados
a veces de haber visto
la tierra que no cambia,
pero al entrar tu risa
sube al cielo buscándome
y abre para mi todas
las puertas de la vida.

Junto al mar en otoño,
tu risa debe alzar
su cascada de espuma,
y en primavera, amor,
quiero tu risa como
la flor que yo esperaba,
la flor azul, la rosa
de mi patria sonora.

Ríete de la noche,
del día, de la luna,
ríete de las calles
torcidas de la isla,
ríete de este torpe
muchacho que te quiere,
pero cuando yo abro
los ojos y los cierro,
cuando mis pasos van,
cuando vuelven mis pasos,
niégame el pan, el aire,
la luz, la primavera
pero tu risa nunca
porque me moriría.


Pablo Neruda
Pintura: Mary Beth Thielhelm, Azurean Sea

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2007

Poema terceiro

Yves Tanguy, Through birds through fire but not through glass (1943)
Isto é mais
tão mais
que a simples formalização do óbvio
é um contrato que assino
com o perfume que me deixas
quando vais
Vulgar sublime que sou
é como quem diz
não posso ir, mas vou

Sei quem és
ilha
tão ilha
amante do Sol
viajante jangada sem vela
tão ilha tão bela
dona de ti e
dona de todo o chão que pises
Sei que não te escondes
senão sob sorrisos
felizes

Amo-te
assim
sem mais
amo-te
amo-te
mesmo sabendo que vais
e aos suaves cabelos
de lava incandescente
sob os quais
uns lábios doces disseram
outra verdade urgente
que agora repito
como quem ficou
-- Não posso ir, mas vou!

Adelino
Pintura: Yves Tanguy, Through birds, through fire, but not through glass (1943)

segunda-feira, 27 de novembro de 2006

Poema segundo



É então aqui a felicidade
concluí maravilhado
pois já não sabia onde
esquecera que de Inverno
o Sol se esconde
em teus olhos marinhos

Depois disseste que não
e não acreditei
não existe a felicidade
só desencontro e fechei
meus olhos para te ver
afundar no horizonte

Onde és tu onde és
que teu rosto se perde
entre o reflexo e a ilusão
e tanto falta acrescentar
ao que foi dito
onde és tu que eu não
eu ainda não acredito

Adelino

terça-feira, 17 de outubro de 2006

Mujer, nada me has dado

Nada me has dado y para ti mi vida
deshoja su rosal de desconsuelo,
porque ves estas cosas que yo miro,
las mismas tierras y los mismos cielos,

porque la red de nervios y de venas
que sostiene tu ser y tu belleza
se debe estremecer al beso puro
del sol, del misino sol que a mí me besa.

Mujer, nada me has dado y sin embargo
a través de tu ser siento las cosas:
estoy alegre de mirar la tierra
en que tu corazòn tiembla y reposa.

Me limitan en vano mis sentidos
-- dulces flores que se abren en el viento --
porque adivino el pájaro que pasa
y que mojò de azul tu sentimiento.

Y sin embargo no me has dado nada,
no se florecen para mí tus años,
la cascada de cobre de tu risa
no apagará la sed de mis rebaños.

Hostia que no probò tu boca fina,
amador del amado que te llame,
saldré al camino con mi amor al brazo
como un vaso de miel para el que ames.

Ya ves, noche estrellada, canto y copa
en que bebes el agua que yo bebo,
vivo en tu vida, vives en mi vida,
nada me has dado y todo te lo debo.

Pablo Neruda

quinta-feira, 31 de agosto de 2006

Conto de f@das


(Era uma vez)
Um rei absoluto
........................
Um dia o rei disse Foda-se
........................
(E viveram felizes para sempre)

Adelino

quinta-feira, 17 de agosto de 2006

Não te dei rosas

Não sei se devia fazer isto, mas já me habituei a viver apesar das incertezas, a descobrir novas incertezas e até -- cúmulo da ilusão -- a viver delas. O certo é que há uns anos criei o hábito de, regularmente, presentear os meus amigos com pequenas colecções dos poemas que ia escrevendo. A última vez que o fiz foi há seis anos, ainda não havia blog, nem tinha nascido o Gato Preto, de modo que já se ia tornando urgente ceder a uma certa tentação de partilha -- ou àquele exibicionismo carente que, frequentemente, me leva a publicar neste blog algum material de qualidade duvidosa. Não sei avaliar se é o caso. Nem pretendo que outros o façam, o meu egoísmo não mo permite. Tão somente decidi que era tempo de parar de pensar que os poemas que escrevi nestes anos, e em particular durante 2004, seriam destinados a ficar para sempre escondidos à sombra da vergonha e do arrependimento.

A poesia que escrevo é ficção. Sempre foi. Mas basear-se-á sempre na realidade da minha vida, e quem me conhece bem poderá facilmente encontrar-me em quase tudo o que escrevo. Pessoalmente, há muito que deixei de me censurar. Pois decidi que não continuarei a fazê-lo ainda naquilo que escrevo, independentemente do tema, do desenlace, das outras pessoas envolvidas. Sou livre.

O livrinho (pdf) que vos ofereço contém alguns poemas que já foram publicados no beco, além de outros completamente inéditos. Quase inéditos até para mim, que tanto me inquietei ao relê-los, tal a ingenuidade. Agora já não são meus, são nossos.

Adelino / Gato Preto

sexta-feira, 21 de julho de 2006

Aos mortais

Ah eu podia morrer hoje se quisesse
mas não me apetece
que seria do vento se não me tivesse
a mim a guiar

Eu não sou como eles não sou como tu
nunca hei-de esperar
que o céu fique azul
antes de largar

Amarras que tive romperam
nunca mais voltei
não voltarei
minhas paredes agora são névoa


Poema: Adelino
Foto: João Coutinho

terça-feira, 18 de julho de 2006

Paris

"A vida é feita de pequenos nadas." (Sérgio Godinho)

És tu Paris
cidade
luz

Se acaso sorris
(e sorris quase feliz)
graciosa
és tão ilha
maravilha

Fosse eu mar
amar
teus cabelos
suaves
areal

És tu Paris
oásis
sal

Moura encantada
ansiosa
determinada
buscando norte
buscando nada

Adelino

quinta-feira, 3 de novembro de 2005

Quantos poemas tem a noite?

Tenho o estranho prazer de não conhecer esta Sherazade que tão facilmente encanta quem a lê. Que dure mil vezes mil e uma noites este blog:

http://quantospoemas.blogspot.com/

quarta-feira, 12 de outubro de 2005

Lição

Vim dos subúrbios da
vontade
e tive-a
de ser diferente

Cheguei só e cego de
ansiedade
não cuidei
de ser prudente

Vi-me cercado dos
muros da cidade
a que julguei
fazer frente

Agora sei que a
Liberdade
se conquista
colectivamente

Adelino

terça-feira, 14 de junho de 2005

De mãos vazias



Hoje roubei todas as rosas dos jardins
e cheguei ao pé de vós de mãos vazias.

~ * ~

Nos últimos dias mal tenho ligado a televisão ou o rádio. Também raramente tenho lido notícias na web. De modo que no Domingo passado fui surpreendido na rua pelas capas dos jornais: tinha falecido um homem de que poucos ainda se lembram, Vasco Gonçalves um revolucionário de Abril. Um homem com causas, com ideais. Pode ter cometido erros, mas fez o que achava melhor para um povo, não para uma elite, ou para uma estatística. Um homem que, do pouco que sei dele, me parece muito, muito longe da tralha de gente oportunista que me enjoa sempre que vejo telejornais.

Hoje levantei-me tarde. Cheguei à rua, vi as manchetes e pensei que estava a sonhar. Era surreal: Álvaro Cunhal num jornal, Eugénio de Andrade noutro... e assim sucessivamente. De tal forma que fiquei baralhado. Carago, afinal quem é que morreu hoje?

Morreram os dois. O Cunhal não era flor que se cheirasse. Supremo guardião da verdade absoluta, dono da chave dos portões que dão para os amanhãs que cantam, admiro-o só pela dedicação à "sua" utopia. Respeito-o. Morreu o homem, um dia destes morrerá o "seu" partido, e não haverá então nenhuma bandeira a meia haste.

O Eugénio, permitam-me que lhe chame "o Eugénio", é só o maior poeta que eu já li. Leiam, também, peço-vos. Aqui, noutros sites, numa biblioteca, numa livraria, onde quiserem, mas leiam-no todo. Estou sem palavras. Nestas alturas, perdoem-me @s jovens que leiam isto, sinto-me assustado e penso: quando estes gajos morrerem todos, vou ficar sozinho no mundo com esta juventude idiota?...

~ * ~


O outro sabia.
Tinha uma certeza.
Sou eterno, dizia.

Eu não tenho nada.
Amei o desejo
com o corpo todo.

Ah, tapai-me depressa.
A terra me basta.
Ou o lodo.


(Quase epitáfio, por Eugénio de Andrade. Os versos que começam este artigo são também dele, e neles ousei alterar uma palavra, para os poder dedicar aos três homens que faleceram. Aqui está a versão original do Poema para o meu amor doente.)

quinta-feira, 19 de maio de 2005

Chegada

Lembro-me de ti
agora que me afundo
noutros abismos

O fresco da madrugada
recorda-me o teu respirar
a tua mão ao chegar
um peito que tive-o

Com saudade
com alívio
sou de novo mortal
lembro-te enfim sem receio
lembro-te em mim sem receio

Agora que se ergue o temporal
e nasce o dia
Agora que fundeio
noutra baía

Adelino

sexta-feira, 29 de abril de 2005

Vou cair

Dizem que vou cair

Porquê a insónia?
Porquê o sol
se as nuvens se condensam?

O destino é delicadamente
subtil
como a deriva de um continente
Nunca dorme Não sabe ser
conveniente

A mentira convincente pode ser
confortável
mas eu quero-te
verdade inverosímil

Segredo

Porque o medo deita-se cedo
mas não consegue adormecer

Adelino



segunda-feira, 18 de abril de 2005

Definições

Que é o amor senão
a suprema ilusão?

E a razão o que é
senão disfarce absurdo da fé?

Eu iludo-me.

Adelino





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