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quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Porque duram os produtos electrónicos cada vez menos?

Primeiro, um palavrão, para quem não souber: obsolescência diz-se daquilo que é obsoleto, ou antiquado, daquilo que cai em desuso.

Sobre um tema do qual muitos de nós, intuitivamente, nos damos conta, A História Secreta da Obsolescência Planeada é um documentário que mostra como os empresários industriais, postos perante a necessidade de motivar o consumo, optaram por fabricar produtos de pior qualidade, obrigando os consumidores a terem de adquirir novos, mais regularmente. Esta estratégia foi (e é) conseguida através de acordos secretos entre concorrentes, os chamados carteís, à margem dos cidadãos, dos governos e das leis.

Porque duram os produtos electrónicos cada vez menos? Como é que em 1911 uma lâmpada teria uma duração certificada de 2.500 horas e cem anos depois a sua vida útil se tenha reduzido a metade?
Este filme franco-catalão, que vos apresento na íntegra (com legendas em português), além de uma análise histórica, aborda vários exemplos da indústria do desperdício e da exploração do consumidor, bem visíveis no nosso dia-a-dia, desde a impressora caseira que se recusa a imprimir, até à célebre história da (des)evolução das lâmpadas de filamentos.

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

O século do povo não dura só 100 anos

Unidos por uma mudança global, milhões de pessoas em todo o mundo desfilaram em protesto, exigindo... democracia! A comunicação social, em negação, vai dando relevo àquilo que considera essencial – as birras da PSP na escadaria do Parlamento, os confrontos de uma dúzia de pessoas com a polícia italiana, ou os golos do Benfica contra o Portimonense. Enquanto isso, lá fora, a realidade mostra-nos que a História é imprevisível, imparável, subtil, e que o século do povo pode não ter terminado ainda.

No passado sábado, pela primeira vez nesta escala e com este grau de convergência, um movimento de protesto planetário fez com que milhões de cidadãos saíssem à rua, mobilizados por palavras de ordem inimagináveis há bem pouco tempo como revolução, e colocando em hipótese heresias como consciência cívica, desobediência civil ou democracia directa. Apenas palavras, mas valiosas palavras, pois ecoaram por todo mundo e delas, não tenham dúvidas, resultarão consequências. O futuro dirá se será esta geração a pôr em prática a reforma dum sistema que, ferido, se tornará cada dia mais perigoso.


Álbum fotográfico da manifestação. Lisboa, 15 de Outubro de 2011

Em Lisboa, estima-se que terão estado nas ruas, entre o Marquês de Pombal e São Bento, cerca de 100 mil pessoas – uma pequena parte dos milhões que, por toda a Terra se cansaram do silêncio e, pela primeira vez na História, se vão dando conta de que há problemas comuns a resolver.

História. Planeta. Coisas grandes, com maiúsculas. Coisas que fazem um estrondo enorme quando caem no chão. Qualquer que seja nosso lado da barricada, será sensato tomarmos isto como um primeiro aviso sério.

Entretanto, façamos de conta que mantemos a calma e circulemos. Devagar, quer se goste ou não, o mundo vai mudando. E nada se repete.

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Lembradura

Só uma lembradura, dirigida apenas a quem não acha que está tudo bem (os outros ainda têm muita austeridade pela frente até ganharem juízo):

Cartaz 15 de Outubro
15 de Outubro a Democracia sai à rua!
Mais detalhes:

sábado, 2 de julho de 2011

Ingenuidade (da taxa e do tacho)

Permitam-me uma ingenuidade.


High Voltage, por LordMeltdown

Por que raio estamos a pagar à EDP para nos cobrar um imposto? Não é suposto ser o Estado a fazê-lo? Para quê pagar a um intermediário? Isto para não falar na injustiça (ou até na ilegalidade) da mesma, que me parece gritante. Cito, a propósito, o Quintus (num artigo onde desmistifica as já famosas mensagens de e-mail sobre o cancelamento da tal "contribuição para o áudio-visual"):
É claro que a taxa em si é absurda… não só a RTP1 tem publicidade, como o seu serviço público (de qualidade duvidosa) devia ser financiado diretamente (totalmente) pelo Orçamento de Estado, não por uma dupla tributação mascarada como “taxa audiovisual”.
No entanto, os nossos governantes não são pessoas normais, possuem uma inteligência superior, portanto a roubalheira continua, e reparem como, em plena (suposta) crise, o governo anterior, em vésperas de cair, foi célere em... aumentar a despesa pública.

domingo, 12 de junho de 2011

Utopia 2.0: entre o sofá e o chicote

O über geek Steve Wozniak revelou que nós, seres humanos, estamos destinados a ser os animais de estimação dos robôs. We're already creating the superior beings, disse. O fundador da Apple acredita que, muito brevemente, todo o trabalho será feito pelas máquinas, we're just going to have the easy life.

*

Entretanto, deste lado do Atlântico, chegam-nos notícias de escravatura. Nada que nos surpreenda ou aflija. Todos sabemos como são construídas as nossas estradas e as nossas pontes, por eslavos e africanos sem documentos nem direitos. Fomos pioneiros nessa indústria, e continuamos fiéis à nobre tradição mercantil, fechando os olhos, desenhando as novas rotas dos escravos. Fazendo História. No sofá.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

O voto é um direito, mas pode ser só uma bufazita

A propósito dum tema que muita comichão me tem dado, um leitor do Bitaites dizia assim:

O voto é um direito por uma razão: para que as pessoas possam escolher entre votar e não votar.
Absolutamente verdade. Nada mais simples e claro. Chama-se, na sua essência, Liberdade. E não há que calar, não há que ter vergonha. Ripostar sempre, impiedosamente, aos que dizem "não votas, não tens direito a opinar". Há que expôr o ridículo do preconceito fascizóide da obrigação do voto, até porque, se o bom senso não chega, nos assiste a Constituição. Essa velha violentada e senil, há que esfregá-la sem dó na cara dos seguidistas e lambões que assim resmungam.


© Angeli

Num país livre, ninguém me obriga a votar. Muito menos "ir votar" assim, com aspas, esse acto puro e simples de legitimização das elites liderantes, dos tachistas sem vivência humana, dos lacaios das máfias, dos carreiristas, da abstracção monstruosa criada por décadas de demissão de um povo. Muito menos o chico-espertismo me negará o direito de exigir, no mínimo, que seja cumprido tudo aquilo que a dita Lei prevê. A cidadania, companheiros e camaradas carneiros, vai muito além da atitude preguiçosa de ir botar o papel na caixa, da farsa inócua, quase criminosa, de "votar no menos mau", essa sim, criadora do imenso vazio que tão bem conhecemos.

Ontem, na secreta certeza de que a sua participação nas decisões da vida pública (e até a sua capacidade de reivindicação, ou de protesto) se esgotaria na insutentável leveza do boletim de voto, cinco milhões e meio de cidadãos portugueses foram votar. Hoje, creio, sentem-se aliviados, como quem, às escondidas, acaba de largar uma bufa.

*

Para quem já conhece esta casa: sim, decidi regressar, mais cedo do que previa. Coisas da vida. Voltem quando quiserem, que são bem-vindos, sobretudo se vierem de Firefox 4 ou superior, caso contrário o template pode não ficar tão lindo... I'm working on it.

domingo, 8 de fevereiro de 2009

Heresias motivacionais


Então, é assim:

The idea here is to provide a place to link to which saves time in having to repeat many common arguments or dispel false assumptions (for example, Is Atheism a "belief"?).
Segundo os seus editores, a FreeThoughtPedia pretende ser um repositório de informação relacionada com o pensamento crítico. Uma espécie de wikipédia dos livres-pensadores. O destaque maior, por força das circunstâncias, é dado ao Ateísmo, e a wiki inclui vários artigos que tentam esclarecer os seus argumentos e defendender-se das falácias e incoerências dos teístas. Acontece que, por me sentir escandalosamente preguiçoso, não li ainda a maior parte do site, tendo-me sobretudo chamado a atenção duas das suas secções, de leitura fácil:
Da primeira, o título é eloquente, e é baseada em sábia legislação emanada da grande nação estadunidense, que inclui pérolas como esta:
No person who denies the existence of a Supreme Being shall hold any office in this state.
Mississippi State Constitution
Article 14 ("General Provisions"), Section 265
Um must, mas a cereja no topo do bolo, a maçã do Éden que a FreeThoughtPedia me deu a provar, foi mesmo a sua Gallery of Motivational Posters: duas mãos cheias de postais de propaganda ateia, alguns possuídos de lucidez impagável e agudeza notável. O alvo-mor das ímpias farpas: o Cristianismo.

Cruel? Ser assim cruel é saudável. Chamem-me herege. Chamem-me excêntrico. Decretem-me uma fatwa. O que vocês têm é falta de sexo.


Mostro-vos hoje dois postais. Haverá mais, se deuses quiserem ou não.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

A história das coisas (ou Zeitgeist)

Andou por aí um polémico filme sobre conspirações secretas de dominação planetária. O "documentário" causou, um pouco por toda a web, apaixonadas discussões. Quase todos tomaram partido, a favor ou contra as teorias apresentadas. Muitos tentaram -- e alguns conseguiram -- desmontar as incorrecções do filme. Feito o balanço, nada. Os críticos, mais seus umbigos, ficaram felizes, pois destruíram uma coisa que, de tão mal feita, estava mesmo a pedi-las; os defensores continuam a acreditar, porque sim, nas teorias insustentadas de um filme de propaganda que, afinal, nunca pretendeu expor o estado actual da nossa civilização. Inadequadamente, chama-se Zeitgeist. Hoje, porém, vou falar-vos de outro, que mais oportunamente se poderia chamar Zeitgeist (*).

"A nossa economia enormemente produtiva... exige que façamos do consumo a nossa forma de vida, que convertamos a compra e o uso de bens em rituais, que procuremos a nossa satisfação espiritual, a satisfação do nosso ego, em consumo... precisamos que coisas sejam consumidas, queimadas, substituídas e descartadas a um ritmo sempre mais acelerado." (Victor Lebow, 1955)

A sociedade do consumo. Há muito que assim nos habituámos a designar a nossa, rendidos à evidência. Queremos coisas, muitas coisas. Compramos, temos, mas queremos mais, e compramos mais. Desperdiçamos. Ninguém o esconde. Mas afinal o que está na essência desta nossa característica? Porque raio somos escravos dos objectos? Será que somos mesmo escravos dos objectos?

The Story of Stuff (A História das Coisas) é um vídeo animado que explica de forma simples e rigorosa como funciona o grande lobby do consumismo ou, como li algures, "o caminho, ardilosamente planeado, da nossa sociedade de consumo". Mais que um apelo ao ambientalista que há em nós, este filmezinho consegue, em 20 minutos, ser o retrato perfeito da civilização ocidental dos nossos dias, um didáctico grito de alerta a uma humanidade manietada e desumanizada... voluntariamente! Nas entrelinhas, uma subtil análise sociológica. Um Zeitgeist.

O vídeo teve o patrocínio da Tides Foundation, uma ONG progressiva, não-lucrativa, dedicada ao financiamento de projectos de cariz social. O argumento e a narração são da activista Annie Leonard.

Agradeço ao Esquisito a divulgação que fez -- vale mesmo a pena! -- e peço-vos muito, muito, que vejam este vídeo com atenção. No site, em Flash ou QuickTime, ou aqui, legendado em português:

The Story of Stuff

"Somos todos escravos do que precisamos
Reduz as necessidades se queres passar bem"
(Jorge Palma, A Gente vai Continuar)

______________
(*) Zeitgeist (Wikipedia): "[...] termo alemão cuja tradução significa espírito de época ou espírito do tempo. O Zeitgeist significa, em suma, o conjunto do clima intelectual e cultural do mundo, numa certa época, ou as características genéricas de um determinado período de tempo."

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Get a dog!

domingo, 12 de outubro de 2008

In God we trust

As notas de Dólar deviam ser assim.
Clique na imagem para ver os detalhes.


In The Monkey Cage

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Another brick in the wall

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

Inseguranças



O Global Peace Index é um ranking global que pretende avaliar o nível de segurança de cada país. É baseado em estudos feitos por várias instituições e especialistas internacionais, avaliando indicadores concretos, internos e externos, como os níveis de crime e violência interna do país, o investimento em armamento, ou mesmo as guerras em que está envolvido.

A classificação é muito interessante, a vários níveis, mas vou aqui deter-me num país apenas: Portugal.

Feitas as contas, Portugal é considerado o sétimo país mais pacífico do Mundo, à frente, por exemplo, do Canadá, da Suíça, da Suécia e da Holanda, e distante dos vizinhos do Sul europeu, Espanha, Itália e Grécia. Subiu três posições em relação a 2007. O DN, citando o relatório de resultados diz:
  • "o número de polícias por habitante é «relativamente baixo em termos globais», embora bastante mais do que nos países nórdicos".
Isto é, apesar de termos um país seguro, temos mais polícia que os considerados mais pacíficos, seguros e progressistas do Mundo, os nórdicos. Isto é, apesar de Portugal ser considerado mais seguro que a maioria dos países nórdicos e de, não sei se paradoxalmemte, ter mais polícia que eles, assiste hoje -- e há anos! -- a uma campanha histérica dos políticos da oposição e da comunicação social -- principalmente desta -- contra os "níveis galopantes" de crime e insegurança no país.

Pelo negócio, pelo monopólio, por um admirável Mundo novo, o jornalismo da treta e os big shows sensacionalistas sabem o que têm a fazer. E, atenção, fazem-no bem.

terça-feira, 2 de setembro de 2008

Opções (ou porque somos tão pequenos)

Este é o pensamento político que temos:

  • estádios de futebol, hoje às moscas;
  • TGV;
  • novo aeroporto;
  • nova ponte;
  • auto-estradas onde, na maioria dos casos, bastaria criar estradas com bom piso, prevendo "variantes" que as desviassem das localidades;
  • etc, etc.
A quem, na verdade, serve tudo isto? Portugueses, pensem: a quem vai servir o TGV?
  1. Aos fabricantes de material ferroviário (e aos seus agentes internos, sob a forma de "luvas");
  2. Ás construtoras de obras públicas e... ;
  3. Claro, aos bancos que vão financiar a obra!
Os portugueses ficarão -- uma vez mais -- endividados durante décadas por causa de mais uma obra megalómana.

Experimentem ir de Copenhaga a Estocolmo de comboio. Comprado o bilhete, dá consigo num comboio que só se diferencia dos nossos Alfa por não ser tão luxuoso e ter menos serviços de apoio aos passageiros. A viagem, através de florestas geladas e planícies brancas a perder de vista, demora cerca de cinco horas.

Não fora conhecer a realidade económica e social desses países, daria comigo a pensar que os nórdicos, emblemáticos pelos superavites orçamentais, seriam mesmo uns tontos. Se não os conhecesse bem, perguntaria onde gastam eles os abundantes recursos resultantes da substantiva criação de riqueza. A resposta está
  • na excelência das suas escolas, na qualidade do seu Ensino Superior;
  • nos seus museus e escolas de arte;
  • nas creches e jardins-de-infância em cada esquina;
  • e nas políticas pró-activas de apoio à terceira idade.
Percebe-se bem porque
  • não construíram estádios de futebol desnecessários;
  • não constroem aeroportos em cima de pântanos;
  • nem optam por ter comboios supersónicos que só agradam a meia dúzia de multinacionais.
O TGV é um transporte adequado a países de dimensão continental, extensos, onde o comboio rápido é, numa perspectiva de tempo de viagem /custo por passageiro, competitivo com o transporte aéreo. É por isso que, para além da já referida pressão de certos grupos que fornecem essas tecnologias, só existe TGV em França, Alemanha e Espanha e, embrionário, segundo o eixo longitudinal da Itália (com pequenas extensões a países vizinhos). É por razões de sensatez que não o encontramos
  • na Noruega;
  • na Suécia;
  • na Holanda;
  • e em muitos outros países bem mais ricos do que este "quintal" mal gerido.
Tirar 20 ou 30 minutos ao Alfa Lisboa-Porto à custa de um investimento de cerca de 7,5 mil milhões de euros não trará qualquer benefício à economia do País. Para além de que, dado ser um projecto praticamente não financiado pela União Europeia, será um presente envenenado para várias gerações de portugueses que, com mais ou menos engenharia financeira, o vão ter de pagar.

Com 7,5 mil milhões de euros podem construir-se:
  • 1000 (mil) Escolas Básicas e Secundárias de primeiríssimo mundo que substituam as mais de cinco mil obsoletas e subdimensionadas existentes (a 2,5 milhões de euros cada uma);
  • mais 1000 (mil) creches (a 1 milhão de euros cada uma);
  • mais 1000 (mil) centros de dia para os nossos idosos (a 1 milhão de euros cada um).
E ainda sobrariam cerca de 3,5 mil milhões de euros para aplicar em muitas outras carências como, por exemplo, na urgente reabilitação de toda a degradada rede viária secundária.

Adaptado de Anovis Anophelis

quarta-feira, 30 de julho de 2008

The Great Firewall of China

Mas não há problema. O circo vai continuar, como sempre, e o negócio está garantido.


Pequim 2008: China vai censurar Internet utilizada pelos media estrangeiros

A China vai censurar a Internet utilizada pelos media estrangeiros durante os Jogos Olímpicos de Pequim, indicou hoje um responsável do comité de organização, recuando numa promessa de garantir liberdade total aos media durante o evento.

"Durante os Jogos Olímpicos, vamos fornecer um acesso à Internet suficiente para os jornalistas", indicou Sun Weide, porta-voz do comité de organização dos Jogos Olímpicos. [...]

Os jornalistas que trabalham no principal centro reservado à imprensa durante os Jogos Olímpicos queixaram-se de não poder aceder aos sites da organização Amnistia Internacional, da BBC, da rádio alemã Deutsche Welle, bem como dos jornais de Hong-Kong "Apple Daily", e de Taiwan, "Liberty Times".

"A nossa promessa era que os jornalistas pudessem dispor de Internet para o seu trabalho durante os Jogos Olímpicos. E nós concedemos acesso suficiente para isso", acrescentou Sun.

No entanto, o comité de organização dos Jogos Olímpicos, sob pressão do Comité Olímpico Internacional (COI), prometeu um acesso completo à Internet para os milhares de jornalistas na China durante o evento, entre 8 e 24 de Agosto. [...]

(Público)

terça-feira, 29 de julho de 2008

Atracção pelo ridículo

Massagens proibidas nas praias algarvias

O comando marítimo do Sul decidiu proibir as massagens nas praias algarvias. A justificação para esta proibição está relacionada com o receio de eventuais fins mais quentes de massagens que até podem começar inocentes.

(TSF)

segunda-feira, 28 de julho de 2008

Algumas reflexões sobre o divórcio

(Texto de Carlos Esperança no Diário Ateísta)

Faltando-me experiência para dar testemunho sobre o divórcio, corro o risco de parecer um padre a falar do matrimónio. Herdei o espírito monogâmico e o hábito de manter os laços conjugais mas sei da vida o suficiente para ter a convicção de que não é o divórcio que interrompe o casamento, é o fim deste que dá origem ao divórcio.

Há almas pias que vêem na consequência a causa e na tentativa de evitar males maiores uma conspiração contra a instituição que os tempos se encarregaram de tornar precária.

Claro que hoje já não é hábito assediar uma divorciada, apontá-la à execração pública e atribuir-lhe a culpa que é apanágio da mulher, uma espécie de complemento do pecado original. Mudaram-se os tempos e as leis, e o divórcio deixou de ser o ferrete vexatório que perseguia a mulher, enquanto o homem, como sempre, gozava de compreensão.


Lembro-me das primeiras divorciadas que conheci e da forma como eram recriminadas pela inépcia na sedução dos maridos, resquícios de tribalismo machista que a sociedade rural e beata se encarregava de perpetuar.

Quando, a seguir ao 5 de Outubro de 1910, a República instituiu o matrimónio, eram vulgares as manifestações de rua com catequistas, celibatárias e padres a condenarem a lei que resolveu situações intoleráveis.

Quando, depois do 25 de Abril, sendo ministro da Justiça Salgado Zenha, se permitiu o divórcio a quem tinha um casamento católico, que a Concordata tinha definido como perpétuo, houve apenas manifestações de júbilo e a faculdade de resolver casos de mancebia, incluindo o do Dr. Sá Carneiro, governante que não via necessidade de uma Concordata.

Agora, 34 anos depois do 25 de Abril, as alterações legislativas para facilitar o divórcio, a fim de o tornar menos traumático, uniram contra si as associações pró-família, vários sectores conservadores, meios religiosos, alguns magistrados e o próprio PR que a idade vai tornando cada vez mais devoto.

Grupos de pressão donde nunca partiu um aviso sobre violência doméstica, pessoas pias que jamais denunciaram maus-tratos conjugais e associações que nunca emitiram uma opinião sobre mulheres assassinadas pelos maridos (são elas as vítimas mais frequentes) vêm agora, tal como aconteceu em Espanha, fazer um enorme ruído sobre uma lei que, na minha opinião, traduz um avanço civilizacional.

É preciso lembrar que o divórcio é a consequência de um casamento falhado e jamais a causa do seu termo. Arrastar pelos tribunais a devassa da vida íntima e a crispação de uma ruptura é acrescentar um sofrimento suplementar para o casal e para os filhos, se os houver. Um tormento inútil por causa de um preconceito.

segunda-feira, 21 de julho de 2008

Pretty vacant

Ao que parece, a imprensa pegou nisto pelo lado fácil da polémica xenófoba. Mas o que mexeu comigo não foi o facto de as crianças em causa serem ciganas. Lá pelo meio dos comentários incríveis que muitos leitores do Público fizeram, li um que, enfim, pôs as coisas no seu lugar:

Eu só falo por mim, não conseguiria continuar a comer calmamente e a apanhar sol com dois cadáveres perto de mim. Acho esta atitude muito degradante, independentemente de serem crianças ciganas ou não. (Rita, Lisboa)

~ * ~

Itália: banhistas indiferentes aos corpos de duas crianças ciganas no areal

[...] As raparigas ciganas não saberiam nadar e ter-se-ão afogado quando foram apanhadas numa onda. Os nadadores-salvadores só conseguiram salvar as amigas de Violetta e Cristina.

Os seus corpos foram levados até à praia e cobertos com toalhas, o que atraiu a curiosidade dos banhistas. Mas por pouco tempo, porque depois dispersaram lentamente.

Uma hora depois
chegou a polícia que levou os corpos. Durante este tempo, poucos foram aqueles que deixaram de apanhar Sol ou de almoçar, a escassos metros dos corpos das crianças.

“Poucos saíram da praia ou deixaram de apanhar Sol. Quando a polícia chegou uma hora depois, as raparigas foram levadas por entre os banhistas deitados na areia”, conta o “Corriere della Sera”, citado pelo “The Guardian”.
[...]

(Público)

sexta-feira, 18 de julho de 2008

Parabéns, Madiba

Talvez seja mau hábito, mas há muito que me acostumei a olhar Nelson Mandela com um aperto na alma, um misto de ternura e medo. Acho que, mesmo inconscientemente, já me assusta aceitar que um dia este homem único nos deixará. Sim, desenganem-se, não há mais como ele. Gandhi houve só um, durou pouco, não deixou linhagem. Mandela há só um, também. Um homem, um mortal, mas tão grande que já não cabe no seu país. No seu país, um que, apesar de tudo, creio que é hoje um lugar melhor para se viver.

Nelson Mandela é só, assim de repente, o único político honesto que eu conheço, neste tempo em que reinam os mentirosos e os assassinos. Um exemplo de tenacidade e de luta, mas sobretudo de integridade e decência. Como o mundo precisava de mais pessoas como ele!

O Madiba faz hoje anos. Longa vida ao Madiba!

sexta-feira, 2 de março de 2007

Um parágrafo

Do Manual Prático de Delinquência Juvenil:

É confortável essa postura de que se sabe de todas as merdas do mundo e que só não se pode corrigi-las por causa da apatia das massas bovinas. É como se com isso nos livrássemos de todo o mal, de toda e culpa e porque não dizer? de toda a responsabilidade. Essa postura não deixa de ser cínica. Cínica porque esconde um medo. Medo de que não exista o mal, nem a culpa e muito menos responsabilidade. Medo de encarar o monstro sem se transformar nele.

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2007

Sim

No meu país as pessoas não são livres. No meu país as pessoas não decidem, excepto sobre aquilo que não pode fazer sombra àqueles que mandam no meu país. Eu não acredito no meu país. Não acredito na sua História, nascida do belicismo de um bárbaro ambicioso, glorificada pela submissão de seres humanos que queriam ser livres e pelo saque do seu pão. Não posso acreditar numa Humanidade com memória selectiva, quanto mais num país assim. Eu não acredito naqueles que nos tentam fazer acreditar que governam o meu país. Eu não aceito sequer que poderei alguma vez ser livre enquanto deixar que me governem. Eu não acredito no meu país.

Este não é o meu país. O meu país são as alvoradas soalheiras que há tanto não via, pois me perdia, horas antes, na madrugada da decepção. Na embriaguez de decepção que é o meu país. O meu país é o lugar onde se abraçam o Mondego e o Amazonas. O meu país é aquele abraço, ora firme, ora terno, o meu país é o sorriso depois de um beijo roubado a quem se ama.

O meu país não é livre. Eu não acredito no meu país. Mas, por um bocadinho de liberdade, de bom senso, de decência, por um niquinho que seja de utopia, eu vou votar. Só desta vez, eu vou votar. Sim!



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