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a agoirar desde 2004

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terça-feira, 3 de outubro de 2006

Cinquenta cêntimos

Passava da uma da manhã. Ela esperava, junto à farmácia. Braços cruzados, descontraída mas séria, como quem acaba de chegar à fila de espera de uma repartição pública e, por força do hábito, inicia uma espera resignada.

Ele tinha uma moeda na mão, uma moeda de um euro, e um objectivo em mente: trocá-la por duas de cinquenta cêntimos. Trocava-a, dizia ansioso, por uma que fosse, pois uma apenas lhe faltava para inserir na máquina de venda de preservativos. Abordou-me, como a outros que ali passavam na hora, mas não o pude ajudar.

Depois, cometi o mesmo erro que repetidamente cometo, a asneira que sempre faço quando se impõe apenas seguir sem olhar. Passar sem ver. Agir sem filosofar no disparate. Em suma, pensei. Pensei o seguinte.

Se eu tivesse cinquenta cêntimos, ter-lhos-ia dado. Ele dar-me-ia em troca um euro que, provavelmente, eu aceitaria. Sim, provavelmente, eu aceitaria. De modo que, feitas as contas, ele pagar-me-ia cinquenta cêntimos para dar uma queca com ela. E isso faria de mim... um chulo?!

Estive a cinquenta cêntimos de... ?

quinta-feira, 21 de setembro de 2006

Hoje sinto o óbvio

Às vezes sinto que já não sinto, por sentir que o absurdo do que sinto é tão imenso e óbvio. Às vezes já nem acordo, por saber que a noite me anestesia e alivia e embala e eleva e me faz sentir que afinal sinto, sinto, sinto muito. Às vezes minto, mas só a mim mesmo, por acreditar que nenhuma dor é inevitável, que nenhuma saudade chega antes de chegar. Hoje sinto, hoje me evaporo, hoje me esqueço, hoje me lembro. De mim, de ti. Do óbvio.

domingo, 9 de julho de 2006

Sismo

Equilíbrio. Sismo. Voz emergente. Nada que és tu. Do. Fim infindável. Inocência disfarçada. Sentença por cumprir. Cismo: toda a ilha é amante do mar, por muitos navios que a visitem.

sábado, 24 de junho de 2006

Nota informativa

Este país é muito deprimente. Eu devo ter muita força de vontade para continuar a ter todo este entusiasmo.

domingo, 18 de junho de 2006

Como dantes

Que meus olhos ofegantes te respirem, que meus lábios sejam papel, poema onde repousas, ó mais bela das metáforas. Que minha vida seja o eco absurdo dos teus cabelos viajando, ruído vago. Ingénua luz. Distante. Distante como o pôr-do-sol. Distantes teus olhos ofegantes e náufragos. E distantes. Mas não mais do que dantes. Que minha vida seja. Que vida ao menos seja.

Fim.

quarta-feira, 10 de maio de 2006

Mensagem

Acorda-me, que esqueci a Primavera. Acorda-me que se foi o sonho, que apenas durmo, suado dum estio que não quis, leve de um vazio tão dolorosamente lúcido. Empurra-me, quando me achares junto ao abismo. Descansa, esperarei por ti no fundo, bem no fundo, cansado de ser deus na terra dos homens, embriagado de ânsia, qual última gota no fundo da garrafa.

Acorda-me, acorda-me agora, violenta-me agora, ou deixa-me. Deixa-me morrendo. Calmo. Morno. Ao colo da eternidade.

segunda-feira, 13 de março de 2006

Silenciosa e quase ausente


Não a procures em nenhum livro, ela só existe aquém do teu olhar profundo e vazio. A revolução só abençoa os persistentes. Ouve, ouve o riso cruel que ela oferece aos heróis do imediatamente, e nunca mais esqueças a sua ingratidão. Qualquer criança sabe: a rosa deve ser colhida com cuidado.

Contempla-a antes de lhe tocares, estuda-a, deleita-te com a sua beleza, deixa-te hipnotizar, embebeda-te até à loucura, mas lembra-te que és pequeno. Tão ridiculamente pequeno. É inútil seduzi-la, a revolução não sabe o que é o desejo. A revolução nunca amou ninguém. É apenas fria, apenas justa. Só recompensa os que vivem para ela. Só tolera os pacientes, ou às vezes nem esses.

A revolução não mora no livro de História, nem no cano da espingarda. Ela espera, silenciosa e quase ausente, no olhar dos seres humanos.

Se conseguires, por um momento que seja, acender o brilho dos olhares à tua volta, terás um vislumbre, só isso, do maravilhoso que virá. Se tu quiseres. E que tu, mortal, talvez não chegues ver. Mas, por um breve momento, terás a tua pequena revolução.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2006

Tenta outro dia

Não lhe apetece ler, e logo hoje que esperas passiva como um livro numa estante. Estremeceste quando te tocou no ombro, mas era só a força do hábito, como se lêsse o título na lombada. Tem os olhos cansados. Está farto de histórias com finais previsíveis, e tu perdes para qualquer policial do Le Carré. Falta-te enredo. Tens acção, sobejam-te assomos de ousadia, mas falta-te... poesia!

Até te digo, acho que ele preferia escolher outro livro qualquer às cegas, ou pelo cheiro. Não sei se sabes mas os livros têm cheiros característicos. Tu, por exemplo, és de certeza um livrinho impecavelmente novo, a cheirar a rebuçado de baunilha. Longe, muito longe, dos romances de bolso a cheirar a tabaco, sujos de se darem, do odor libertino do álcool dissolvido em suor e noite, do cheiro a vómito.

Não sei já dizer se ele ainda sabe ler(-te). Qualquer calhamaço insípido sobre a vida sexual das formigas tem agora potencial para te levar a melhor, bastando que tenha marcas de café derramado e vestígios de areia da praia. Acho que ele se deixou perder-te. De modo que hoje não lhe apetece ler. Tenta outro dia.

segunda-feira, 3 de outubro de 2005

Electrónica aplicada

Só uma certa pessoa poderia perceber isto, e só se por acaso soubesse electrónica:

Se eu fosse um transístor, poder-se-ia dizer que fui da saturação ao corte sem passar pela zona activa...


Símbolo do Transístor de Junção Bipolar... All by the rules, hã Rui? ;)

quarta-feira, 28 de setembro de 2005

Indisponível

Levantei-me cedo. Tomei um duche. Não fiz a barba, apeteceu-me que se notasse o meu desprezo pelos padrões. Não ouvi os noticiários matinais, e fiz por evitar as bancas de jornais. Hoje o destaque sou eu, o auto-sufuciente, o indispensável.

Cheguei tarde. Sentia os olhos fundos, mais sonolentos que eu, e um vazio interior, talvez explicável pela falta do pequeno-almoço. A eficiência macabra que revelou, mostrou-me claramente que também ele um dia decidira deixar a humanidade em casa. Mexia-se bem, com um controlo soberbo de tudo o que o rodeava, sobretudo daquilo que lhe dizia respeito. Dizia o essencial. Não "apenas" o essencial, mas o essencial. O tempo podia medir-se pelo ritmo seguro dos gestos e dos sons que produzia. Era um ser impressionante, um ex-humano, apesar de tudo, mas quase perfeito. Senti-me grande, elevado pelo exemplo daquela criatura ideal, infinitamente acima dos ineficazes, dos ilógicos, da turba feliz e barbeada que lamentavelmente nunca atingiria aquele nível de sintonia com o líder.

Quando acabou, saí demonstrando a firmeza e indiferença que não precisara de aprender com ele. Olhar em frente, passada firme, auto-suficiente, indispensável, mas indisponível. Como tudo o que é indispensável. Senti um ruído no estômago. Era o vazio que mostrava um natural desconforto perante a poluição exterior. Não podia ser fome. De facto, pensei, jamais voltaria a ter fome. Foi quando a vi.

Insegura, ondulante. Constipada. Uma picada quase imperceptível na nuca, um ligeiro arrepio, e tive de correr para casa. Buscar o que lá deixei.

segunda-feira, 26 de setembro de 2005

Alive and kicking

Não, de facto ainda não morri. Nem morrerria agora, ainda que me pagassem. Pessoalmente, sinto-me tão espantosamente bem, que morrer seria um desperdício. Para mim e para o resto da Humanidade -- mas principalmente para mim. Lembro-me de mim desiludido e resignado, a uma tal magnitude que quase chegava a ter pena de mim... Assusto-me da facilidade com que este eu arrogante e extrovertido caía fulminado por qualquer desaire, qualquer dificuldade, pela simples subtileza de um olhar gelado. Mas o Sol acende às vezes em nós uns pedaços de lucidez, de coragem. Agora continuo desiludido, mas determinado. Vivo. E determinado.

De resto, sejamos sérios, eu não podia abdicar de continuar a viver neste planeta maravilhoso, assistindo a tão risíveis filmes e tão bizarros actores. Por Alá, que seria de mim -- e que tédio, senhores -- se não fossem os Big Brothers (os da TV e o outro), os incêndios (o que arde cura, sempre ouvi dizer), as roubalheiras (as descaradas e as envergonhadas), as leis (que não são abortos mas sim salsichas), o bin Laden, o seu amigo Bush Júnior (e as bombas com que ambos nos animam os telejornais), o BritCom, os fazedores de opinião, os Marcellos (não sei se ainda leva dois L), os Hermanos (não os nuestros, mas os Saraivas), os Salazaritos e os Estalinezitos, os centristas, os vendidos (perdoem a repetição), os boys, os toys, os futebóis, os majores, os capitães (Abril, águas mil), os Avelinos, as Fátimas (a virgem imaculada e a que nem tanto), os velhos senadores (e o fabuloso duelo intergaláctico), os banqueiros do povo (que tanto fazem em prol da criatividade em anúncios de TV), as tias (as ôcas) e as vacas loucas, os frangos do Ricardo...

Andei tanto tempo a queixar-me, e sem razão. Sob pena de me vir a tornar num velho chato e resmungão, tenho que ver as coisas doutra maneira. Toda esta riqueza, esta diversidade, só pode ter em mim duas consequências: uma longa gargalhada, e muita, muita determinação.

segunda-feira, 1 de agosto de 2005

Laranja (não há palavras)

O Tomané é um miúdo despachado, todo radical pá, só visto, atão não é que ele chega noutro dia ao pé duma garina, a Amélia, conheces a Amélia, a chavala nem o conhecia, tás a ver, e ele até nem a curtia, pelo menos que eu saiba, ele andava era atrás duma gaja da nossa turma, uma baixinha caixa de óculos que não lhe ligava nenhuma, mas ele não via mais nada, tava todo doido por causa dela meu, andava há que tempos a ver se ela coisa e tal, percebes, se reagia quando ele se metia com ela, e tal, era só ela estalar os dedos que o Tomané derretia-se todo, mas, népias, o man nunca desistiu da maluqueira mas a mim disse-me que não ia dar em nada, tava resignado, ou lá como se diz, e que com o desgosto ia dar em maricas, vê lá tu, cruzes canhoto, o que as mulheres nos fazem às vezes, mas prontos, eu tava era a falar da Amélia, essa sim, uma garina muita gira e simpática, até muita linda, por acaso, mas prontos, ele chega-se a ela, epá, até me dói a alma a contar isto, como é que é possível, quer dizer, ela não é assim uma gaja fácil, andou há tempos um palhaço qualquer a armar-se que a havia de papar, o gajo até era de Lisboa, e o papá era cheio da massa, ministro, ou o catano, ele fartou-se de a convidar pra isto e pr'aquilo, mas ela nada, só com as amigas e o matulão do primo, sabes, aquele da cabeça rapada, chamam-lhe "skin", mas é sem ele saber, que se ele topa é capaz de se passar, mas isso não interessa, o caso é que o tal puto, o do mercedes, pois, o puto de Lisboa tinha um mercedes, ficou todo lixado com as negas que levou, uma noite apanhou uma bebedeira e andou aí a dizer que ela era lésbica, que o primo a andava a comer, e tal, a sorte dele foi o "skin" não andar por perto, mas foi uma cena triste, ia levando uma tareia dumas gajas amigas dela que lá tavam na discoteca, coza-se, o mulherio ficou em brasa meu, até chispava, mas o Tomané, o Tomané é que me surpreendeu pá, o outro puto nunca mais o vi, pudera, mas o Tomané, prontos, é verdade que ele sempre teve jeitinho pra se meter com as gajas, até com as profes, carago, um dia apanhou aquela profe boazona, lembras-te, a estagiária que dava filosofia, apanhou-a de surpresa à saída do liceu e tunga, deu-lhe um beijo na boca, isto contou-me ele, que eu não vi, mas acredito pá, pois acredito, e ela era tão boa, a malta babava-se toda no Verão, quando ela trazia aqueles vestidos aerodinâmicos, ai meu deus, não há palavras, disse-me o Tomané que a mulher até deixou cair os livros que trazia na mão, ficou toda aparvalhada a pobre, até foi por isso que faltou às aulas três dias seguidos, deve ter andado a desinfectar a língua, ah, ah, ah pois, a língua, o nosso amigo não brinca em serviço, mas a tipa depois disfarçou bem, a malta toda sabia, que aquele sacana contou a toda a gente, a turma toda a rir-se, até as gajas, mas ela sempre a fazer-se de novas, não se passa nada, cum carago, até parecia que não tinha comido um linguado do nosso herói, do Tomané, depois ainda houve quem insinuasse que ele tava na tanga, invejosos do caraças, ele se quisesse até a levava prá cama, que é menino pra isso e até mais, a espiga é que ele gosta é de miúdas mais simples, assim mais pró intelectual, inteligentes, tás a ver, que digam umas merdas complicadas à frente dos velhotes, pra meter respeito, malucas não é muito com ele, ah sim, que aquela era muito Sócrates e Descartes, mas vai-se a ver e é mais Freud que outra coisa, parece muito atinadinha mas deve ser uma ganda tarada, ui ui, ó pá nem te digo nada, só sei que o Tomané se passou, mas isso já foi anteontem meu, que eu tava lá e ouvi, prontos, tava um chinfrim do caneco que não se ouvia um cú d'olho, mas eu percebi na mesma, quer-se dizer, conheço o gajo há tanto tempo que nem preciso de o ouvir pra saber o que ele diz, e foi "laranja", o bacano chega ao pé da Amélia, ela toda gira, de mini-saia, ufa, um espanto, sorri pra ela e diz "laranja", só isto pá, mai nada, só te conto, a gaja ficou muito séria a olhar pra ele, ele a olhar pra ela, isto foi praí dois minutos, sem exagero, depois a gaja desata a rir que nem uma perdida, altas gargalhadas, parecia uma maluquinha, ficou tudo a olhar pra ela, e ela ria, ria, ria, não parava, que cena marada, o Tomané muito sério, sempre a olhar pra ela, com aquele olhar à gato das botas, não sei se tás a ver, só corou um bocadinho, e foi só do lado esquerdo, quando ela lhe espeta um chapadão, até fez eco, até a mim me doeu, mas o gajo tinha-os lá, continuou teso, a desafiá-la, ela tentou resistir, mas desatou logo a chorar, até dava a ideia que eles se conheciam meu, mas não, nunca tinham falado, eles são de turmas diferentes, e ela nem é de cá, se isto tem alguma lógica, diz-me lá se isto tem ponta por onde se lhe pegue, claro que ele consolou-a logo, ai não, chama-lhe burro, estiveram abraçados um bom bocado, ele só a acariciava, não dizia nada, não disse uma puta duma palavra, ela é que lhe dizia umas coisas baixinho, a soluçar, não dava pra perceber, eu também não tava ali pra controlar a vida do rapaz, bolas, afinal ele é meu amigo, tem que haver algum respeito, e tal, mas entretanto ela parou a choradeira, acalmou, e adivinha, ficaram os dois cromos, o Tomané e a Amélia, sentados, de mãos dadas, pasmados, a olhar um pró outro como se estivessem a ver alguma maravilha, parecia que a coisa que cada um mais gostava na vida eram os olhos do outro, já não diziam nada, ele também não tinha dito a ponta dum corno, só disse uma vez "laranja", não entendo, estariam a falar por telepatia, ou aquilo era bruxedo, não sei, a verdade é que nunca mais descolaram desde essa hora, eu fico parvo, andou aí o betinho do mercedes e esforçar-se e nada, o Tomané chega lá, diz "laranja", e, não há palavras, eu fico parvo.

segunda-feira, 11 de abril de 2005

Censura

O meu cérebro já possui um filtro que barra a entrada a disparates. O dispositivo já vem de origem, mas eu gosto -- não quero cá concorrência.

Estou é a pensar em fazer um upgrade ao software, a ver se consigo implementar uma firewall e um anti-vírus. quando conseguir, ah, quando o sistema estiver a funcionar, meus amigos, toda a informação proveniente de:

i) televisão;
ii) internet;
iii) jornais;
iv) revistas;
v) livros;
vi) doutores;
vii) engenheiros;
viii) funcionários;
ix) meninas de olhos bonitos;

Terá os dias contados.
Será. Tudo. Tão. Sim. Ples. Mente. Per. Feito.

segunda-feira, 4 de abril de 2005

Your time is running out

O caso é que ando a arrastar-me dolorosamente por uma zona complicada da minha existência. Como eu tenho pena da malta que tem tido o mau gosto de me aturar nos últimos tempos. Não deve ser nada bonito de ver, não senhor. Mas, então o que se passa, perguntarás. Resumindo numa frase, se calhar a rotunda é só uma curva, a curva imediatamente antes da recta final da minha juventude.

Desde que sei pensar (?) que sou gajo para ter ideias originais ou, pelo menos, pouco convencionais. Por exemplo, sempre odiei solenemente a ideia de ter uma profissão aborrecida, uma rotina chata (desculpa a redundância), um horário, meu deus, um horário! Quando eu tinha dezasseis anos, desenhava o futuro de forma simples e vaga -- i.e, perfeita: tirar um curso superior, arranjar um emprego bem pago, ganhar uma pipa de massa em meia dúzia de anos, depois pôr uma mochila às costas e partir à descoberta do mundo. De preferência acompanhado da mulher da minha vida. Férias vitalícias. Que bonito! Dez anos depois...

Ah, enganas-te! Dez anos depois, nada mudou. Continuo o mesmo inadaptado, o mesmíssimo utópico. As utopias variam um bocadito, evoluem, mas o espírito é o mesmo. Assusta-me quase sempre vagamente o facto de não me preocupar absolutamente nada com a perspectiva de eu ser um falhado em potência. Mas, por vezes -- e é o caso presente, amiga blogueira --, por vezes fico em pânico. Há dez anos atrás, se queres saber a minha opinião, eu era um puto banal, tímido, embora irrequieto, irritante até, de ideias a tender para o simples, mas muito pouco influenciável. Mesmo muito pouco. Agora, sinto-me a perder isso, a perder a minha independência!

Que bizarro. Pensando bem, tudo isto é óbvio. A verdade curta e grossa é que estou a ficar velho (leia-se adulto). No entanto (e segue-se uma confissão muito delicada), tenho mais medo da reacção das outras pessoas em relação a isso, do que propriamente das implicações físicas ou mentais que isso me traga directamente... Lá está: influenciável. Deixei o meu planetazinho ideal à prova de bala, à prova de tudo, e caí de cu na realidade.

Deixa-me contar-te uma. Imagina que um dia destes fiquei revoltadíssimo quando vi um escuteiro, fardado, pois claro, que seguia com os seus camaradas numa excursão, no mesmo autocarro que eu (de autocarro, pois claro), divertidíssimo, o estafermo, a destruir a porcaria do regulador de ar condicionado do lugar dele. Epa, subiram-me cá uns calores! Mas calei-me, eles eram muitos (muitas, sobretudo, ah, ah). Mas francamente, um escuteiro! Um escuteiro nunca mente. Um escuteiro ajuda velhinhas a atravessar a estrada. Um escuteiro faz pelo menos uma boa acção por dia. Eu acho que não me estou a fazer entender. A sério. Eu detesto escuteiros. Ou melhor: eu detesto os escuteiros, o grupo. Tal como detesto o exército. O problema é que normalmente eu ficaria a rir-me da situação e, se tivesse uma câmara de vídeo à mão, aquilo seria notícia de abertura do telejornal. "Grave crise no Corpo Nacional de Escutas, despoletada pela destruição de um autocarro da Rede de Expressos por um escuteiro em fúria. O indivíduo em causa tinha já antecedentes criminais, nomeadamente..." Com exageros e tudo. Mas não, bolas! Em vez de me divertir cínicamente, deu-me para uma de moralizar. Um escuteiro, ainda por cima, valha-me deus!...

De modo que estas reflexões me têm deixado pouco tempo (paciência?) para a prosa. Terá sido isso e...



5ª Edição!


Este também deu algum trabalho, embora menos. Não foi assim nada de especial.

...

OK, eu não sei mentir, tenta esquecer o que leste até agora. Tudo isto são desculpas. A razão pela qual eu não tenho escrito no blog é o facto de eu ter passado um mês inteirinho a ouvir o Shoot Down dos Prodigy (com os irmãos Gallagher, dos Oasis), em altos berros, umas quinhentas vezes por dia. É claro que fiz uma pausa para recordar os Ornatos :) mas, sinceramente, já nem me lembro das músicas deles que, a propósito, adoro. "Shot the gun / Shot the gun to the bang, bang, bang / Shot the gun / Shot the gun to the bang, bang, bang / ... / Too many tied to the / Too many tied to the bang, bang, bang / ... / Your time is running out", é tudo quanto sei. Vago, simples e hipnótico, como (me) convém. Perfeito. Além de que (outra confissão), a minha rotunda tem afinal um monte de saídas, e eu resolvi ir por todas ao mesmo tempo...

Agora uma palavrinha para ti, que provavelmente és a única pessoa que terá curiosidade para ler isto tudo até ao fim: obrigado pelo protesto. Deu frutos. O texto ficou uma bela merda, sem dúvida, e fiz um enorme esforço para parecer lunático -- normalmente isso é espontâneo! Mas nem tudo é mau. Graças ao empurrãozinho, por ter dito estas banalidades já me sinto melhor. Desabafei. Estou confiante. Sinto-me mais maduro.

Mais... adulto.

...

Aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaah!!!...

;)

(Obrigado. Um beijinho.)

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2005

Na rotunda

Imagina-te numa estrada. Segues e encontras uma rotunda com duas saídas.

Uma das saídas não tem sinais, nem vem nos mapas. A via perde-se para lá duma colina. Às vezes distinguimos um sol, espreitando atrás da curva, outras pressentes um vento frio, cortante, quase cruel. Mas suspeitas da tua lucidez, e sabes que aquele é o lugar onde sonhaste sonhar a felicidade. Aquela é a estrada que queres seguir, é o caminho que desejas tomar, mais que tudo na vida. Tens receio. Pensas que pode ser cedo demais para tomar uma decisão tão importante. Intimida-te e seduz-te.

Vais dando voltas à rotunda. Lembras-te que depois de seguires por um dos caminhos não poderás voltar atrás. As estradas da imaginação têm sentido único, apesar de terem rotundas.

A segunda saída é-te familiar. Estudaste-lhe bem a geografia, não temes já as suas curvas perigosas -- que as tem --, e agradam-te os lugares remotos e tranquilos que uma luz verde te convida a visitar. Enquanto vais circulando pela rotunda, qual ponteiro de relógio, interrogas-te se este não será um caminho fácil demais. Tu que amas a inquietude, que és tu próprio imprevisível, hesitas.

Imagina-te, ponteiro rodando na rotunda. E nas rotundas da vida circula-se no sentido horário, convém lembrar. Suspeitas que nenhuma das duas estradas alguma vez regresse à outra. Jamais irão convergir. Deves pois optar. Ou não. Diz-me: que farás?

Um dia dir-te-ei o que fiz.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2005

"Eu temo o que quero e quero o que temo"

O medo. O medo faz parar. Recuar. O medo conserva. Nunca conquista. Só recebe. Nunca dá. O medo é frio. É escuro. O medo acelera o ritmo cardíaco. O medo é por vezes filho do desejo. E por vezes mata-o. O medo faz tremer. Faz suar. O medo nunca matou ninguém. Mas arrefece as mãos. E os sentimentos. O medo é forte. Persistente. O medo é fácil. Mas arrasta-se pelo chão cheio de vergonha. O medo esconde-se à sombra da sensatez. É ponderado. Prudente. O medo sobrevive. O medo não sabe viver. O medo não pode viver.

Vive. Sê feliz.



domingo, 2 de janeiro de 2005

O pontapé

Doía-me o dedo grande do pé, por isso tomei uma decisão. Há muito que a vida desregrada que levo vinha exigindo sérias resoluções. É preciso um tipo ser responsável, ter consciência. É escandaloso como tenho sido um vadio infame, um boémio, um pecador, um falhado militante. A continuar neste desvairo, é de esperar que até o oxigénio venha a ter vergonha de me entrar nas narinas. E não tarda que revejam a Constituição para que possa ser punida a minha indiferença.

Basta a alguém ouvir-me conversar um pouco para me topar logo: gajas, poesia, bebedeiras, frustrações várias e pouco mais. Se calha o tema ser política ou economia, é só pra difamar os ranhosos capitalistas que mandam neste país todo menos em mim. Nem chego a ser um anarquista a sério -- sou um anarquista mete-nojo. Sou o Pacheco Pereira da Esquerda. E a maneira libertina como escrevo? Sempre a começar frases com "e", sempre a adulterar a sintaxe, armado em excêntrico. Uma vergonha.

Isto um dia tinha que acontecer, uma pessoa, mais cedo ou mais tarde, tem que pensar seriamente nas coisas. É que, ainda por cima, este desgraçado que vos fala é um idiota romântico. Em vez de ser esperto e partir para o engate descontraidamente e na desportiva, criei um penoso e pouco eficaz hábito de me perder de amores por rapariguinhas desconhecidas. Depois, como diz um amigo meu, ameaço-as com declarações de amor sinceras e convites pouco subtis. Por amor de deus, diz ele, as gajas não querem que as ponham num pedestal, querem que as ponham na cama. Ou, como diz o meu tio Zé (um sacana da pior espécie): deixa-te de paixões, uma gaja serve pra dar duas fodas e tá a andar.

Mas eu não aprendo, sou um errante crónico, e o pior de tudo é que acho imensa piada à ideia. Uma toupeira social no século XXI, um revolucionário fora de época, sem respeito pelas regras, sem rei nem roque. E um sentimental ingénuo, ainda por cima. Porra, hei-de ter um fim triste, se não apanho juízo.

Chegou pois a hora de dizer basta. Nada será como dantes. Um gajo não deve andar no mundo por ver andar os outros, deve ter princípios, um código de valores. Deve ter objectivos. Por isso, porque Liberdade é das poucas palavras que merecem maiúscula, porque a cerveja nunca me abandonou quando precisei dela, porque lutar por um amor improvável vale muito, mas muito mais, que uma conquista fácil, mas principalmente porque dei um brutal pontapé na perna da cama que me doeu como se me tivessem dado um chuto nos... por tudo isto tomei a firme decisão de, agora convicto e consciente, agora seguro dos meus deveres, continuar exactamente na mesma.

quinta-feira, 30 de dezembro de 2004

Ordeno-te que nunca me obedeças!

Chega aqui ao pé de mim, tenho uma coisa pra te dizer. Senta-te aqui. Dizem que hoje está frio, mas estou com um calor do caraças. Isto não é normal, devo estar com febre. Velho? Achas que estou velho? Tás mas é doido, puto! A mania que esta malta nova tem de achar que o melhor do mundo é ser jovem... Já no meu tempo era assim. Ingénuos.

Sabes puto, eu já não acredito na juventude. Nem nos adultos, para ser sincero. É tudo um grande rebanho de paus-mandados. Porquê? Tens quase dezoito anos e ainda tenho de te explicar porquê? És um pau-mandado, um doce cordeirinho, porque há pessoas que mandam em ti, fazem de ti o que querem e tu deixas. Decidiram a tua vida mesmo antes de tu nasceres, moldaram-te a personalidade. Periodicamente, dão-te a ilusão de controlares o teu futuro, mas é só a fingir. Um torrãozinho de açúcar de quando em vez e o serviço está feito. Domesticaram-te. Sabes, o ser humano deve ser selvagem. Eu não acredito na juventude, pelo menos nesta. Sim, meu querido, admito: fui eu que te fiz assim. Acho que não tive forças para fazer melhor. Fez-me falta a tua mãe... ainda faz. Ela sim, era uma mulher determinada, fazia-me acreditar que podíamos mudar o mundo. E podíamos!

Quando eu me apaixonei por ela, era mais novo que tu, ela era linda, tinha uns cabelos negros que enfim, nem sei descrever, não sou poeta. Ela já simpatizava comigo e achou piada ao meu embaraço quando a via. Pois resolveu ajudar-me! Ela era assim, gostava de ajudar os outros, gostava de toda a gente. Aprendi isso com ela: dar o benefício da dúvida, partir sempre do princípio que as pessoas não nos querem mal, que são boas. Levou alguns pontapés, mas foram poucos, infelizmente. Não teve tempo para mais. E então ela ajudou-me. Um belo dia viu-me sozinho no jardim, aproximou-se, eu quase fugi quando vi o olhar dela! Sentou-se ao meu lado, olhou o céu a sorrir, perguntou-me se na minha terra o sol era assim tão quente e eu acalmei um pouco. Não teria tempo, mesmo que quisesse, de responder. Ergueu o braço direito, pôs a mão no meu ombro esquerdo (devo ter aqui algum botão de "start"), olhámo-nos quase sem atmosfera pelo meio e... meu caro, foi tão único, tão suave, tão perfeito, que tive a ilusão de ter sido eu a seduzi-la.

Não, não, não! Não quero saber nada das tuas namoradas, puto! Eu já não aprendo nada com isso, guarda essas novelas para os teus filhos. Se te deixarem ter filhos. Mas por que raio te sentaste no chão, quando tens aqui uma cadeira? Senta-te aqui. Ao meu lado há sempre uma cadeira vazia, meu filho. Ou por outra, deixa lá. No fundo, sujar as calças é o que te resta de irreverência. Deixa lá, não te vou tirar isso. ... Sabes, se eu tivesse a tua idade e o meu velhote me dissesse que não se importava que eu continuasse a emporcalhar as calças, eu levantava-me logo do chão. Fiz-lhes a vida negra, aos meus velhos. E eles não foram lúcidos o suficiente para me agradecerem, não aprenderam nada! Ri-te, ri-te... gosto de te ver feliz. Agora velho, a chamar-me velho, o pirralho...

Velhos são os previsíveis, aqueles cujo presente mais não é que a repetição do passado, aqueles a quem as previsões dos astrólogos servem que nem uma luva. Eu nunca fui assim. Posso ter muitos defeitos, e tenho, mas tento ser original. Ter futuro. O quê? Tens razão, poucas pessoas estão preparadas para aturar um tipo como eu. Somos educados para ambicionar segurança e desprezar a aventura. Riscos sempre calculados. Até que a morte nos separe. Tu também pensas assim, não é? Mas isso não quer dizer que eu esteja enganado...

Está na hora, não é? Eu não sei, não tenho relógio, sempre evitei habituar-me demasiado a esse monstro. Só falei porque te vejo impaciente. Ela vem aí, não é? Bem me parecia. Nem penses pá, não quero conhecê-la! Apresentas-ma só depois de fazeres amor com ela. Oh diabo, não é preciso corares! Nem vou querer que me contes nada. Aliás, essas coisas fazem-se notar sem serem ditas...

Espera, antes de ires, quase me esquecia do que te queria dizer. É só um segundo. Vou-me levantar que isto é importante. De velho para jovem, de pai para filho, de homem para homem (será que também tens um botão no ombro esquerdo?). Olha-me nos olhos e ouve bem...

quarta-feira, 22 de dezembro de 2004

A divisão

Oito pares de sóis radiam sobre nós. E há oito janelas para o labirinto. Muitos pensam que são portas, mas não, são janelas. As cortinas foram fechadas. Muito conveniente. O crescente jaz sobre a mesa e a seu lado um relógio empurra vagarosamente o ponteiro dos segundos.

Dos dedos dos autómatos saem segredos. Pelos olhos e ouvidos entram subtilezas que, a espaços, activam leves sorrisos.

Aqui as rectas são rectas, direitas, limpas. Tendem mesmo para o infinito. Os círculos são mesmo circulares e ferem os olhos de tão perfeitos. Só as máquinas fingem combater o silêncio, e fazem-no com a discreta competência de assassinas profissionais.

A divisão está fechada. Apesar disso existe uma porta por onde muitos entram, pensando que de facto entram, quando na verdade saem. Vindo do lado de fora, sente-se um rumor fresco que dói no peito de quem o ouve. Através da brancura hermética da geometria da cúpula, passam subtis pedaços de alucinação. Por vezes há autómatos que descodificam esses sinais. Há autómatos que se perdem.

Diz quem viu, que o gerador de tais sobressaltos é um ser bioquímico que se deixou de filosofias e quis ser mais escravo que os activistas autómatos. Uma fêmea, como é referido nos livros antigos. Também, agora todos os livros são antigos.

E por vezes há autómatos que descodificam esses sinais. Há autómatos que se perdem.





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