Cinquenta cêntimos
Passava da uma da manhã. Ela esperava, junto à farmácia. Braços cruzados, descontraída mas séria, como quem acaba de chegar à fila de espera de uma repartição pública e, por força do hábito, inicia uma espera resignada.
Ele tinha uma moeda na mão, uma moeda de um euro, e um objectivo em mente: trocá-la por duas de cinquenta cêntimos. Trocava-a, dizia ansioso, por uma que fosse, pois uma apenas lhe faltava para inserir na máquina de venda de preservativos. Abordou-me, como a outros que ali passavam na hora, mas não o pude ajudar.
Depois, cometi o mesmo erro que repetidamente cometo, a asneira que sempre faço quando se impõe apenas seguir sem olhar. Passar sem ver. Agir sem filosofar no disparate. Em suma, pensei. Pensei o seguinte.
Se eu tivesse cinquenta cêntimos, ter-lhos-ia dado. Ele dar-me-ia em troca um euro que, provavelmente, eu aceitaria. Sim, provavelmente, eu aceitaria. De modo que, feitas as contas, ele pagar-me-ia cinquenta cêntimos para dar uma queca com ela. E isso faria de mim... um chulo?!
Estive a cinquenta cêntimos de... ?

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