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sábado, 11 de junho de 2011

O povo quer o poder?


'Reality Show' por Gilad

Na sequência do artigo anterior, publico aqui [1] uma pequena análise de Maria Filomena Mónica (MFM) ao sistema eleitoral português. Longe do paternalismo hipócrita de Cavaco ou da chantagem da esquerda parlamentar (vote em nós senão a direita ganha e está tudo lixado), a autora fala da que é, para mim, a questão essencial para o futuro da vida pública deste país: do poder dos cidadãos, da sua representação nos órgãos de decisão e da sua capacidade de intervenção nos mesmos. Ciente, como no fundo todos nós, que monstro velho não aprende modas, MFM diz-nos que a única forma de se mudar a lei eleitoral é através da opinião pública. Temos de explicar, clara e sucintamente, que o atual sistema é negativo, porque nos retira poder. A melhoria não virá de dentro.

Perante isto, surgem-me algumas dúvidas: estarão os cidadãos conscientes de que o seu futuro e a sua qualidade de vida dependem de uma mudança de atitude, de maior exigência e de participação nas decisões? Estará a esquerda parlamentar, de rabinho quente, tão comprometida com o monstro, à altura dessa tarefa de consciencialização? Estará sequer interessada? E os movimentos ditos independentes ou libertários, terão capacidade para amadurecer, sair do pantanal de negação e auto-marginalização onde se afundaram?

Ou seja: o povo quer o poder? A esquerda quer que o povo queira o poder?

Tudo questões demasiado sérias, daí que não me surpreenda que ningém esteja muito preocupado com elas.

*

Estes partidos precisam de uma lição
por Maria Filomena Mónica
Expresso, 10 de junho de 2011

Há dias — quase todos — em que era melhor o Presidente da República estar calado. Eis o que, em vésperas da última eleição legislativa, resolveu dizer aos portugueses: "Se abdicarem de votar, não têm depois autoridade para criticar as políticas públicas". E se nós, cidadãos, não gostarmos das regras do jogo eleitoral em vigor? Não faz parte do meu código genético votar em branco, mas foi isso que fiz no último domingo. Por uma razão: os líderes partidários — todos — têm de meter na cabecinha a ideia de que a democracia não é deles.

Os secretários-gerais gostam de escolher os nomes que figurarão nas listas para deputados, um prémio dado à subserviência dos acólitos. Em 2010, 82% dos portugueses afirmaram estar descontentes com os partidos, mais 10% do que no ano anterior. A verificar-se a tendência, para o ano quase todos os portugueses estarão contra os partidos. A génese do atual regime foi infeliz: não fomos nós que con-quistámos as liberdades, mas os militares que, uma vez derrubado o Estado Novo, entregaram o poder aos partidos. Sem uma ligação com a população, estes aprovaram uma lei eleitoral destinada a protegê-los das tendências reacionárias do povo. Durante anteriores campanhas, o PSD e o PS afirmaram que iriam proceder a uma reforma. Uma vez no poder, não mexeram um dedo, pelo que continuamos a ter de escolher de entre a ementa cozinhada pelas maiorias partidárias. A minha voz, sei-o. não conta. Mas se milhares de cidadãos começarem a votar em branco — e foi isso que sucedeu no último domingo, com 148.058 eleitores a deslocarem-se até às mesas eleitorais para protestar — o cenário muda de figura. Luís Campos e Cunha apresentou uma boa ideia, ao afirmar que, no hemiciclo, deveriam existir cadeiras vazias correspondentes à percentagem de votos em branco na contagem global.

Se nós, eleitores, quisermos ter uma voz no Parlamento, precisamos da reintrodução de círculos uninominais (um candidato por partido e por círculo). O rei D. Pedro V que, em 1859, impôs este esquema, contra a vontade, note-se, dos partidos, morreu há muito. Hoje, não há Presidente da República, muito menos este, capaz de torcer o braço aos líderes partidários. Por conseguinte, a única forma de se mudar a lei eleitoral é através da opinião pública. Temos de explicar, clara e sucintamente, que o atual sistema é negativo, porque nos retira poder.

Se for necessário proceder-se a uma alteração constitucional — em vez dos atuais distritos teriam de existir pequenas unidades territoriais — que se avance. Mudar a Constituição não é o fim do mundo. E, por favor, não me venham com o argumento de que a criação de círculos uninominais favorece o caciquismo, em detrimento de um sistema que representaria o "interesse nacional" (um eufemismo para designar o interesse dos secre-tários-gerais). Não há esquemas perfeitos: mas o voto em alguém perto de mim dá-me uma maior possibilidade de o premiar ou punir. Não é pouco.

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[1] Só uma nota sobre copyrights. Comprei o jornal, logo é meu e julgo que o posso emprestar a quem quiser. Além disso, ao contrário do Expresso e da restante imprensa, quando posso, identifico as minhas fontes, ainda que, como é o caso deste semanário, me causem vergonha.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

O voto é um direito, mas pode ser só uma bufazita

A propósito dum tema que muita comichão me tem dado, um leitor do Bitaites dizia assim:

O voto é um direito por uma razão: para que as pessoas possam escolher entre votar e não votar.
Absolutamente verdade. Nada mais simples e claro. Chama-se, na sua essência, Liberdade. E não há que calar, não há que ter vergonha. Ripostar sempre, impiedosamente, aos que dizem "não votas, não tens direito a opinar". Há que expôr o ridículo do preconceito fascizóide da obrigação do voto, até porque, se o bom senso não chega, nos assiste a Constituição. Essa velha violentada e senil, há que esfregá-la sem dó na cara dos seguidistas e lambões que assim resmungam.


© Angeli

Num país livre, ninguém me obriga a votar. Muito menos "ir votar" assim, com aspas, esse acto puro e simples de legitimização das elites liderantes, dos tachistas sem vivência humana, dos lacaios das máfias, dos carreiristas, da abstracção monstruosa criada por décadas de demissão de um povo. Muito menos o chico-espertismo me negará o direito de exigir, no mínimo, que seja cumprido tudo aquilo que a dita Lei prevê. A cidadania, companheiros e camaradas carneiros, vai muito além da atitude preguiçosa de ir botar o papel na caixa, da farsa inócua, quase criminosa, de "votar no menos mau", essa sim, criadora do imenso vazio que tão bem conhecemos.

Ontem, na secreta certeza de que a sua participação nas decisões da vida pública (e até a sua capacidade de reivindicação, ou de protesto) se esgotaria na insutentável leveza do boletim de voto, cinco milhões e meio de cidadãos portugueses foram votar. Hoje, creio, sentem-se aliviados, como quem, às escondidas, acaba de largar uma bufa.

*

Para quem já conhece esta casa: sim, decidi regressar, mais cedo do que previa. Coisas da vida. Voltem quando quiserem, que são bem-vindos, sobretudo se vierem de Firefox 4 ou superior, caso contrário o template pode não ficar tão lindo... I'm working on it.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

"My only friend, the end"

Em boa verdade, já devia ter feito isto há muito tempo, até por apreço para com as muitas centenas de pessoas que, por engano ou não, continuam a vir aqui mensalmente. Sempre tive a secreta esperança de voltar a ter tempo (e motivação, e disponibilidade mental) para voltar a publicar regularmente. Paciência.

Sendo assim, por respeito a todos vós, companheiros deste último reduto de Liberdade, a World Wide Web, aqui declaro o fim do Blog do Gato Preto. Pode ser que regresse no futuro, não sei. "The future's uncertain and the end is always near." Sei, no entanto, que foi um enorme privilégio servir-vos e servir-me de vós durante estes quase seis anos.

Obrigado. Hasta siempre!

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Cid Teles, o que queria ser tudo

Aqui Jaz o Cid Teles
Sob esta pedra gelada,
O que queria ser tudo
E afinal nunca foi nada.


Rais me partam se esta porcaria de blog já parece um obituário, mas dói-me ver partirem, um a um, os grandes da minha galeria de indispensáveis. Os que guardam, secretamente, a restrita biblioteca dos valores que me vão construindo. Largos e irrecuperáveis pedaços de Humanidade.

Faleceu há dois dias um homem que faz muita falta à sua terra.


Tenho uma ânsia enorme de viver
Um desejo sangrento de lutar!
Quero dos outros tudo merecer
E mais do que ninguém ter para dar.

Avaro, quási a medo, ando a colhêr
Fôlhas de louro para me adornar;
Quantos agora passam sem me ver
Curvar-se-ão depois quando eu passar!...

Hei-de ter cetros, c'roas, pedrarias;
Castelos senhoriais, tôrres esguias,
A perder-se no Céu em rósea bruma...

Quero tudo na vida! Mas na morte,
Só desejo a altivez serena e forte
Duma onda desfeita em branca espuma!

Aspiração, por Manuel Cid Teles (Sombras, 1934)


sexta-feira, 24 de abril de 2009

Há ainda quem cuide bem deles



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